Crescimento de Longo Prazo
Comparação internacional de crescimento e a datação das crises
De onde vêm as séries de 17 países, por que a média por década é geométrica, como as crises são datadas e o que exatamente significa "anos até recuperar".
O painel de crescimento comparado responde a uma pergunta simples de enunciar e difícil de medir: o Brasil cresce mais ou menos que os outros — e quanto lhe custaram as crises? Este artigo descreve as escolhas por trás de cada número.
As séries
Todos os dados vêm dos World Development Indicators do Banco Mundial, em duas séries anuais:
NY.GDP.MKTP.KD.ZG— crescimento do PIB real, % ao ano, desde 1961.NY.GDP.PCAP.PP.KD— PIB per capita em paridade de poder de compra, dólares constantes de 2021, desde 1990.
Usar uma fonte única em vez de juntar contas nacionais de cada país é deliberado: o Banco Mundial já harmoniza metodologia, ano-base e conversão cambial. O preço é a defasagem — a base é revista uma ou duas vezes por ano, e o último ano costuma ser preliminar. Por isso o painel refaz sempre os cinco anos mais recentes, e não só o último.
A paridade de poder de compra importa aqui. Converter o PIB pelo câmbio de mercado subestima a renda de países onde bens não comercializáveis — aluguel, serviços, transporte — são mais baratos. A PPC corrige isso, e é o que permite dizer que o brasileiro tem cerca de um quarto da renda do americano sem que a frase dependa da cotação do dólar do dia.
Países, agregados e por que eles não se misturam
São 17 entidades: o Brasil, seis economias avançadas, sete emergentes e três agregados do próprio Banco Mundial (Mundo, OCDE e América Latina e Caribe). As médias de "desenvolvidos" e "emergentes" que o painel calcula são simples: cada país pesa igual, e só entram na conta os que têm dado naquele ano — um país cuja série começa em 1990 não puxa a média dos anos 1960.
Os agregados do Banco Mundial não entram nessas médias. Eles já são ponderados por PIB, então somá-los aos países contaria as mesmas economias duas vezes. Aparecem como séries próprias, e a diferença entre as duas leituras é informativa: a média simples diz como cresce o país típico, o agregado diz como cresce a produção do bloco — e a China faz esses dois números divergirem bastante.
Por que a média por década é geométrica
Crescimento se acumula por multiplicação, não por soma. Uma economia que cai 50% e depois sobe 50% tem média aritmética zero, mas terminou 25% menor do que começou. A média aritmética sempre superestima séries voláteis — exatamente as que mais interessam aqui, como a Argentina e o Brasil dos anos 1980.
O painel usa a média geométrica: (Π(1+g)) ^ (1/n) − 1. A década corrente é parcial, e o número de anos observados é exibido junto — comparar quatro anos com dez sem essa ressalva daria a impressão de precisão que o dado não tem.
A datação das crises
Crise não é um fato do dado: é uma classificação. O painel não deriva as janelas de nenhuma regra automática sobre as séries — usa cronologias publicadas e cita a fonte de cada uma:
- CODACE/FGV para os ciclos brasileiros. O comitê data os trimestres de pico e vale da atividade, como a recessão do 2º trimestre de 2014 ao 4º de 2016.
- NBER para os ciclos americanos, na mesma lógica de comitê.
- Cronologias do FMI e da CEPAL para os episódios regionais, e marcos históricos documentados para os choques de oferta.
Como a comparação internacional só existe em frequência anual, a datação trimestral é convertida para o ano que a contém. Uma recessão que começa no 2º trimestre de 2014 aparece como faixa a partir de 2014, ainda que o ano fechado tenha crescimento positivo — é uma perda de resolução conhecida, e a razão de a tabela mostrar o pior ano da janela ao lado da queda acumulada.
A cronologia é editável no painel administrativo. Datação é matéria de julgamento, e prendê-la ao código tornaria a revisão mais cara do que precisa ser.
Variação acumulada e anos até recuperar
A variação acumulada é o crescimento composto dentro da janela da crise, contando apenas os anos com dado — não é a soma das variações. Um país sem nenhum ano observado na janela não gera linha na tabela.
Ela é chamada de variação, e não de queda, porque frequentemente é positiva: o Brasil cresceu 29% durante o primeiro choque do petróleo, no auge do milagre econômico. Uma crise global não atinge todo mundo, e a tabela mostra exatamente isso.
Os anos até recuperar contam do último ano antes da crise até o primeiro ano em que o PIB per capita volta ao nível daquele ponto. É uma medida de nível, não de taxa: voltar a crescer não é o mesmo que ter recuperado o que se perdeu, e a diferença entre as duas coisas costuma ser de anos.
Limitações
A mais importante: a série per capita começa em 1990. Para toda crise anterior a 1991 não existe o nível do ano-base, e o painel mostra "sem dado" em vez de estimar — o choque do petróleo e a crise da dívida aparecem com queda acumulada, mas sem tempo de recuperação.
Depois: uma crise pode ser global sem atingir todo mundo, e a marcação por faixa não distingue intensidade. A faixa diz quando, a tabela diz quanto. O choque inflacionário de 2022 é o caso extremo — aparece como faixa e não tem contração correspondente na maioria dos países.
Por fim, crescimento do PIB não é bem-estar. O painel compara o tamanho da produção e a renda média; não diz nada sobre como uma e outra estão distribuídas — para isso, os painéis de renda e os indicadores de desigualdade.