Termômetro de risco de recessão
Três leituras do ciclo brasileiro — o que a economia é hoje, para onde está indo e o que pode derrubá-la à frente — a partir de nove indicadores agrupados em blocos. O cálculo é inteiramente determinístico: cada indicador é julgado por uma regra conhecida da literatura de ciclos, publicada abaixo, sobre séries oficiais do IBGE, do Banco Central e do boletim Focus.
Termômetro de recessão
A economia ainda não está em recessão, mas perdeu ritmo: a direção é de piora, puxada por transmissão do aperto; as condições à frente são adversas (condições monetárias e condições fiscais).
A recessão já chegou?
AtençãoEstado atual
A economia perdeu ritmo, mas os dados correntes ainda não caracterizam recessão.
Atividade
Atividade cresceu no trimestre (2026Q1: +1,17%), longe do critério de recessão técnica.
Mercado de trabalho
Média de 3 meses 0,37 p.p. acima da mínima do último ano, ainda abaixo do gatilho de 0,50 p.p.
Para onde a economia está indo?
AdversoMomentum
A direção é de piora, puxada por transmissão do aperto.
Transmissão do aperto3 canais
3 canais de 3 em deterioração (inadimplência do crédito, comprometimento de renda e bens de capital (média 6m)) — o aperto já está se propagando, e conta como um sinal só porque tem uma causa comum.
Expectativas de mercado
Projeção para 2027 cedeu de 1,70% para 1,57% nas últimas coletas — revisão leve para baixo.
O que pode derrubá-la à frente?
AdversoPressão antecedente
As condições à frente são adversas (condições monetárias e condições fiscais).
Condições monetárias
Juro real de 9,7% a.a. é contracionista para toda a faixa de r* considerada (4%–6%) — a conclusão não depende da hipótese de neutro.
Condições fiscais
Com déficit primário de 1,19% do PIB e dívida bruta em 81,9% do PIB (+5,6 p.p. em 12 meses), a trajetória fiscal pressiona prêmio de risco e juros longos.
Setor externo
Com commodities em reais subindo 2,3% em 12 meses e conta corrente em -2,46% do PIB (+1,06 p.p. em 12 meses), o setor externo não adiciona pressão ao ciclo.
Leitura determinística de regras publicadas, sobre séries oficiais do IBGE, do Banco Central e do Focus. Não é probabilidade de recessão, previsão nem recomendação de investimento.
Por que três leituras, e não uma nota
Uma economia com PIB crescendo, desemprego baixo, juro real de 10% e investimento caindo 5% não está no mesmo ponto do ciclo que outra com PIB caindo e desemprego subindo — mas uma nota única de 0 a 100 pode dar o mesmo número às duas. É por isso que o termômetro separa estado atual (os coincidentes, que dizem se a recessão já chegou), momentum (o que está piorando agora) e pressão antecedente (as condições que podem derrubar a atividade adiante). A divergência entre as três é justamente a informação mais útil.
O medidor no topo é qualitativo: três zonas, sem escala numérica. O ponteiro fica na média das três leituras (favorável = 0, atenção = 1, adverso = 2) — é uma difusão entre dimensões, refazível de cabeça, e não um índice. A zona acesa e o selo seguem a pior das três, porque basta uma leitura adversa para o quadro merecer cautela.
Por que blocos, e não indicadores soltos
Os indicadores não são independentes. Quando o Banco Central aperta, o mesmo choque reaparece na inadimplência, no comprometimento de renda das famílias e na produção de bens de capital. Contar cada um como um sinal separado transformaria uma causa em três, e qualquer contagem de "quantos indicadores pioraram" ficaria inflada. Por isso os canais de transmissão do aperto formam um bloco só, agregado pela mediana: o bloco vira negativo quando a maioria dos canais vira, não quando um deles se mexe.
Cada indicador recebe −1 (em deterioração), 0 (neutro) ou +1 (favorável) pela regra da sua linha. O bloco fica com a mediana dos seus indicadores; a dimensão fica adversa quando metade ou mais dos seus blocos está negativa, em atenção quando algum bloco não está favorável, e favorável no resto. Bloco sem dado sai do cálculo em vez de entrar como neutro — entrar como neutro seria afirmar que medimos e nada estava acontecendo.
Os nove indicadores num relance
| Dimensão | Bloco | Indicador | Regra | Quando acende vermelho |
|---|---|---|---|---|
| Estado atual | Atividade | Atividade (IBC-Br) | Recessão técnica | Duas quedas trimestrais consecutivas |
| Estado atual | Mercado de trabalho | Desemprego | Regra de Sahm | Média de 3 meses ≥ 0,50 p.p. acima da mínima de 12 meses |
| Momentum | Transmissão do aperto | Inadimplência do crédito | Tendência 12m | Alta de 0,30 p.p. ou mais em 12 meses |
| Momentum | Transmissão do aperto | Comprometimento de renda | Tendência 12m | Alta de 0,50 p.p. ou mais em 12 meses |
| Momentum | Transmissão do aperto | Bens de capital (média 6m) | Média 6m | Média da variação interanual abaixo de −2% |
| Momentum | Expectativas de mercado | PIB projetado (Focus) expectativa | Revisão de vintages | Revisão de −0,30 p.p. ou projeção abaixo de 1% |
| Pressão antecedente | Condições monetárias | Juro real ex-ante | Juro real vs. faixa de r* | Mais de 3 p.p. acima do topo da faixa de r* (6%) |
| Pressão antecedente | Condições fiscais | Resultado primário | Primário + trajetória da dívida | Déficit primário E dívida bruta subindo 2 p.p. ou mais em 12 meses |
| Pressão antecedente | Setor externo | Commodities em reais | Commodities + conta corrente | Queda de 10% nas commodities E piora de 1 p.p. na conta corrente |
As regras, uma a uma
Regra de Sahm (desemprego)
Compara a média móvel de três meses da taxa de desemprego com a menor média móvel dos doze meses anteriores. Meio ponto percentual acima dessa mínima é o gatilho proposto por Claudia Sahm em 2019 e que, nos Estados Unidos, disparou no início de todas as recessões desde 1970. Entre 0,20 e 0,50 ponto o componente fica em observação; abaixo disso, favorável.
Recessão técnica (IBC-Br)
A convenção usual chama de recessão técnica dois trimestres consecutivos de queda do produto. Aplicamos o critério às médias trimestrais do IBC-Br, o indicador mensal de atividade do Banco Central — o proxy do PIB que fica disponível antes das Contas Nacionais. Trimestre incompleto é descartado: incluí-lo faria o trimestre corrente, ainda pela metade, parecer queda só por ter menos observações. Duas quedas seguidas acendem vermelho; uma queda isolada, amarelo.
Juro real ex-ante contra a faixa de r*
A Selic meta deflacionada pela expectativa de IPCA para doze meses do Focus, pela equação de Fisher exata, comparada ao juro real neutro. E aqui há uma honestidade necessária: r* não é observável. O Banco Central trabalha em torno de 5% ao ano nos Relatórios de Inflação recentes, mas dívida alta, prêmio de risco e poupança baixa tornam essa estimativa particularmente incerta no Brasil — e cravar um número faria a frase "tantos pontos acima do neutro" soar mais firme do que o dado permite.
Por isso a regra usa uma faixa de 4% a 6% e só chama de contracionista o juro que está mais de 3 pontos acima do topo dela: aí a conclusão vale para qualquer r* considerado plausível, e não depende da hipótese escolhida. Entre os dois extremos, o veredito publicado é explicitamente condicional — "só é contracionista se r* estiver na parte baixa da faixa". Usamos a taxa ex-ante, e não a ex-post, porque é ela que decide investimento hoje.
Crédito e endividamento das famílias
Inadimplência do crédito e comprometimento de renda entram pela variação acumulada em doze meses. Os limiares são diferentes porque as séries se movem em escalas diferentes: 0,30 ponto percentual para a inadimplência, 0,50 para o comprometimento de renda. São canais de transmissão — famílias com a renda travada em serviço da dívida consomem menos no trimestre seguinte.
Produção de bens de capital
A variação interanual da produção de bens de capital na média dos últimos seis meses, da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE. É o componente que mais antecipa o ciclo: máquina encomendada hoje é investimento que só aparece no PIB adiante. Média abaixo de −2% acende vermelho.
Revisão da projeção de PIB (Focus)
A série do Focus guarda vintages: para cada ano projetado há uma coleta por mês. Comparamos a projeção mais recente para o próximo ano com a de três coletas atrás. Revisão para baixo é sinal — a mudança de opinião do mercado costuma chegar antes do dado. Projeção abaixo de 1% ao ano também acende vermelho por si só, porque é crescimento perto da estagnação.
Condições fiscais
O resultado primário acumulado como proporção do PIB, junto da trajetória da dívida bruta em doze meses. Os dois são exigidos juntos de propósito: déficit primário com dívida estável é sustentável, e dívida subindo com primário positivo costuma ser conta de juros, não gasto novo. É a combinação — déficit com dívida em alta de 2 pontos ou mais no ano — que caracteriza pressão fiscal capaz de contaminar prêmio de risco, juros longos e, por aí, investimento.
Setor externo
O índice de commodities em reais (IC-Br), que é a renda que entra pelas exportações, e o saldo em conta corrente. Uma recessão brasileira pode nascer fora: China desacelera, commodities caem, renda exportadora encolhe, e só depois o choque aparece nas séries domésticas. Queda de 10% nas commodities somada a piora de 1 ponto do PIB na conta corrente acende vermelho.
O que este índice não é
- Não é probabilidade de recessão. "Adverso" não quer dizer 70% de chance de contração. São regras qualitativas sobre séries observadas, sem modelo probabilístico por trás — foi por isso que a nota de 0 a 100 saiu: ela sugeria uma precisão que sete regras heterogêneas nunca sustentaram.
- Não são sinais independentes. Os canais de transmissão respondem em boa parte ao mesmo choque monetário. Os blocos existem para não contar essa causa única várias vezes, mas nem eles eliminam a correlação entre dimensões.
- Expectativa não é dado. A projeção do Focus mede o que o mercado acha que vai acontecer, e vem marcada como tal na tela. Ela pode errar, e há alguma circularidade: analistas leem indicadores como este.
- r* é hipótese, não medida. Por isso o juro real é avaliado contra uma faixa, e o veredito diz quando depende dessa hipótese.
- Recessão técnica não é recessão. Dois trimestres de queda são uma convenção estatística. Quem data oficialmente os ciclos brasileiros é o CODACE, com um conjunto bem mais amplo de variáveis e meses de defasagem — e o IBC-Br aqui é proxy do PIB, não o PIB.
- Regras importadas. Sahm foi calibrada nos Estados Unidos, num mercado de trabalho com muito menos informalidade que o brasileiro. Aplicada aqui, é indicador razoável, não lei.
- Choques exógenos ficam de fora. Evento climático, ruptura institucional ou crise financeira global podem virar o ciclo sem aviso nas séries que o índice lê.
Os dados são atualizados pela mesma rotina que alimenta os demais painéis do site. Veja também os 7 pilares, o panorama e a documentação de metodologia.