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Publicado em 10/08/2026 às 17:10

Boletim Semanal · 10 de agosto de 2026

Manchete da semana

A semana abre com o quadro mais benigno de inflação do ano: o IPCA subiu 0,16% em junho, a menor variação mensal desde outubro de 2025, com o núcleo EX3 e o índice de difusão recuando juntos. O alívio chega com a Selic parada em 14,25% ao ano e o dólar abaixo de R$ 5,10, mas o pano de fundo segue exigente: as expectativas rodam mais de 1 ponto acima da meta, o comprometimento de renda das famílias renovou o recorde e as contas públicas pioraram.

Destaques em números

  • 0,16% · IPCA (junho, queda ante os 0,58% de maio)
  • 14,25% a.a. · Selic (agosto, estável desde junho)
  • R$ 5,08 · dólar médio (julho, queda ante junho)
  • 5,4% · taxa de desemprego (trimestre até junho, queda)
  • 28,48% · comprometimento de renda das famílias (maio, alta e recorde da série)
  • US$ 3,7 bilhões · superávit da balança comercial (junho, alta)

Inflação

O IPCA, índice oficial de preços ao consumidor, subiu 0,16% em junho (ante 0,58% em maio), a menor variação mensal desde outubro de 2025, e acumula cerca de 4,6% em 12 meses, ainda acima do teto de 4,50% da meta contínua de 3,00%. O movimento veio acompanhado: o núcleo EX3, que exclui os itens mais voláteis, arrefeceu de 0,58% para 0,22% (junho). Quando índice cheio e núcleo desaceleram juntos, cresce a chance de o alívio ser mais do que um choque pontual de alimentos ou energia.

Atividade e emprego

O PIB avançou 1,8% na comparação interanual (1º trimestre de 2026), repetindo o ritmo dos dois trimestres anteriores: a economia se acomodou em uma velocidade de cruzeiro modesta. O desemprego recuou a 5,4% (trimestre até junho), devolvendo a alta sazonal do início do ano.

A taxa de investimento subiu a 16,5% do PIB (1º trimestre), acima dos 16,0% do trimestre anterior, mas abaixo dos 17,6% do início de 2025. Investimento nessa faixa segue historicamente baixo para as necessidades de infraestrutura do país.

Micro em foco

A ponta micro conta a história do aperto: o spread bancário ficou em 21,99 pontos percentuais (junho), acima de um ano antes, e o comprometimento de renda das famílias atingiu 28,48% (maio), o maior nível da série iniciada em 2016. Crédito caro e orçamento tomado por prestações ajudam a explicar por que o consumo perdeu força.

No lado real, varejo e serviços cresceram apenas 0,4% na comparação anual (maio), o ritmo mais fraco do ano em ambos, enquanto a indústria acelerou a 1,7% (junho). A difusão do IPCA caiu a 53,6% (junho), o menor espalhamento do ano, e o rendimento real do trabalho ficou em R$ 3.621 (junho), 2,8% acima de um ano antes, embora recue na margem desde março.

O conceito que ilumina a semana é o de comprometimento de renda: a fatia da renda mensal que já sai destinada a juros e amortizações, a prestação que vence todo mês. Acima de um quarto do orçamento, como agora, o consumo perde fôlego e pequenos choques de juros ou de emprego empurram famílias para a inadimplência.

Juros e câmbio

A Selic está em 14,25% ao ano (agosto), estável desde junho, depois de cortes de 0,25 ponto em março, abril e junho. Com a inflação acumulada perto de 4,6%, o juro real passa de 9% ao ano, terreno claramente contracionista. O dólar teve média de R$ 5,08 em julho, queda de quase 8% ante o pico de dezembro, o que reforça o alívio na inflação de bens.

Contas públicas

A dívida líquida do setor público alcançou 68,5% do PIB (junho), alta de 3,9 pontos percentuais desde setembro de 2025, e o resultado primário acumulado em 12 meses ficou negativo em 1,19% do PIB (junho), a leitura mais fraca da janela recente. Déficit persistente e juros elevados pressionam a dívida pelos dois lados: é o principal fator doméstico a limitar a queda dos juros longos.

Expectativas de mercado

O boletim Focus desta semana, divulgado pelo Banco Central na manhã desta segunda-feira (10 de agosto) e já incorporado aos painéis do Observatório horas depois, projeta IPCA de 4,24% para os próximos 12 meses. A distância para a meta contínua de 3,00% é de 1,2 ponto percentual, ainda dentro da banda de tolerância, cujo teto é 4,50%.

Mesmo conhecendo a desaceleração do IPCA de junho, o mercado manteve a projeção na faixa de 4,05% a 4,35% em que as leituras rodam desde julho: viu o alívio, mas ainda não mudou de opinião. Expectativas nesse nível tendem a limitar a velocidade de novos cortes da Selic, mesmo com a inflação corrente cedendo.

Cenário externo

A balança comercial registrou superávit de US$ 3,7 bilhões (junho), o segundo maior do ano, somando cerca de US$ 10 bilhões no primeiro semestre. O fluxo comercial positivo sustenta o real e conversa com a queda do dólar no período: mais dólares entrando pela via do comércio reduzem a pressão sobre o câmbio.

O que observar na próxima semana

  • IPCA de julho (IBGE): confirmará, ou não, se a desaceleração de junho virou tendência.
  • Próximo boletim Focus (BCB, segunda-feira, 17 de agosto): depois de a projeção ficar praticamente parada nesta semana, qualquer recuo nas expectativas de 12 meses reforçaria o espaço para novos cortes da Selic.
  • PMC e PMS de junho (IBGE): mostram se varejo e serviços saíram do ritmo de 0,4% registrado em maio.
  • Estatísticas fiscais de julho (BCB): a trajetória da dívida líquida segue como principal risco doméstico.