Publicado em 20/07/2026 às 17:12
Boletim Semanal · 20 de julho de 2026
Manchete da semana
A inflação brasileira desacelerou com força em junho: o índice composto de IPCA, INPC e IGP-M registrou 0,16% no mês, ante 0,58% em maio, enquanto o núcleo EX3 recuou para 0,22%. O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) acumulado em 12 meses, porém, segue em 4,64%, ainda acima do teto de 4,50% da meta contínua de 3,00%. O alívio na margem, combinado à SELIC mantida em 14,25% a.a. após o início do ciclo de cortes, reforça o debate sobre o ritmo de flexibilização monetária no segundo semestre.
Destaques em números
- 0,16% a.m.: inflação composta IPCA/INPC/IGP-M (junho, queda forte ante 0,58% em maio).
- 0,22% a.m.: núcleo de inflação EX3 (junho, queda ante 0,58% em maio).
- 14,25% a.a.: taxa SELIC (julho, estável ante junho, após máxima de 15% no ciclo).
- 5,6%: taxa de desemprego PNAD Contínua (maio, queda ante 5,8% em abril).
- R$ 5,20: câmbio USD/BRL (julho, praticamente estável ante junho).
- US$ 1,79 bilhão: saldo da balança comercial (maio, queda ante US$ 4,70 bilhões em abril).
Inflação
O índice composto de inflação caiu de 0,58% em maio para 0,16% em junho, a segunda menor leitura dos últimos 12 meses (mínima de -0,11%, máxima de 0,88%). O núcleo EX3, que exclui itens voláteis para capturar a tendência subjacente, também cedeu, de 0,58% para 0,22%.
No acumulado em 12 meses, tanto o índice cheio quanto o núcleo rodam em 4,64%, acima do teto de 4,50% da meta. A convergência plena para os 3,00% do CMN (Conselho Monetário Nacional) ainda depende de leituras mensais próximas de 0,25% de forma sustentada. Uma única leitura baixa não caracteriza tendência; o dado de julho dirá se a desaceleração tem fôlego.
Atividade e emprego
O PIB cresceu 1,8% na comparação interanual no primeiro trimestre de 2026, repetindo o ritmo do quarto trimestre de 2025 e bem abaixo do pico de 4,1% observado nos últimos 12 meses. Já o IBC-Br, proxy mensal da atividade, subiu a 111,2 pontos em abril, maior nível dos últimos 12 meses.
O desemprego medido pela PNAD Contínua recuou para 5,6% em maio, ante 5,8% em abril. A taxa segue historicamente baixa, o que sustenta a renda das famílias, mas mantém o mercado de trabalho apertado aos olhos do Banco Central.
Micro em foco
A abertura do IPCA corrobora o alívio: o índice de difusão medido em Preços Relativos caiu de 64,99% para 53,58% em junho, indicando que pouco mais da metade dos subitens subiu de preço, ante quase dois terços no mês anterior. Queda de difusão com núcleo baixo sugere desinflação mais espalhada, não concentrada em poucos itens.
No crédito, o spread bancário recuou para 22,09 pontos percentuais em maio, ante 22,24 em abril. O spread bancário é a diferença entre a taxa que os bancos cobram nos empréstimos e a taxa que pagam para captar recursos; ele embute inadimplência esperada, custos operacionais, impostos e margem. Quando o spread cede junto com o início dos cortes da SELIC, o custo final do crédito cai em dobro, ampliando a transmissão da política monetária à economia real.
No lado setorial, os dados de maio mostram desaceleração sincronizada: comércio avançou 0,4% em 12 meses, serviços 0,4% e indústria 0,2%, todos nas mínimas do ano. No mercado de trabalho desagregado, o rendimento médio real recuou a R$ 3.612 em maio, ante R$ 3.641 em abril, primeiro sinal de acomodação da renda após meses de alta.
Juros e câmbio
A SELIC foi mantida em 14,25% a.a. em julho, após o ciclo de queda iniciado a partir da máxima de 15%. Com inflação corrente fraca e atividade desacelerando, cresce o espaço para novos cortes, embora o acumulado em 12 meses acima do teto da meta recomende cautela na comunicação do Copom.
O câmbio segue bem-comportado: R$ 5,20 por dólar em julho, quase estável ante junho e abaixo da média de R$ 5,25 dos últimos 12 meses. Câmbio estável reduz o repasse de custos importados aos preços domésticos, ajudando a desinflação.
Expectativas de mercado
No boletim Focus, a expectativa de inflação para os próximos 12 meses está em 4,18%, praticamente estável na semana. As expectativas seguem acima do centro da meta de 3,00%, sinal de ancoragem apenas parcial: o mercado projeta inflação dentro do intervalo de tolerância, mas não converge ao alvo central.
Cenário externo
Nos Estados Unidos, o CPI (índice de preços ao consumidor) desacelerou de 4,17% para 3,46% em 12 meses em junho, queda expressiva que alivia a pressão sobre o Federal Reserve. A taxa Fed Funds permaneceu em 3,63% a.a., estável desde maio.
Para o Brasil, o diferencial de juros segue elevado, o que favorece o real. Na balança comercial, o saldo de maio caiu a US$ 1,79 bilhão, ante US$ 4,70 bilhões em abril; o superávit menor reduz uma das fontes de oferta de dólares, ponto de atenção para o câmbio adiante.
Modelos do Observatório
A Regra de Taylor estima taxa de juros implícita de 10,60% a.a. em junho, abaixo da SELIC vigente de 14,25%, sugerindo que a política monetária segue em território contracionista. As curvas de Phillips do Observatório e o QPM-lite projetam inflação acumulada de 4,64% em 12 meses, em linha com o dado corrente.
A leitura conjunta é de desinflação gradual com juro real elevado: os fundamentos apontam continuidade da queda da inflação, condicionada à manutenção do câmbio estável e à acomodação da atividade.
O que observar na próxima semana
- Boletim Focus de segunda-feira: se a desaceleração de junho começar a puxar as expectativas de 12 meses para baixo, fortalece o caso para novos cortes da SELIC.
- Prévia da inflação de julho (IPCA-15): primeiro teste de fôlego da leitura baixa de junho.
- Dados de comércio exterior de junho: confirmação ou reversão do estreitamento do superávit comercial.
- PNAD Contínua e rendimento de junho: se a acomodação da renda real se confirmar, alivia a preocupação do Banco Central com pressões salariais.