Regras de Política Monetária
Regra de Taylor: a taxa de juros implícita
Como calculamos a taxa de juros que uma regra mecânica recomendaria, com a inflação observada ou com a esperada, e como ela é comparada com a Selic praticada para classificar a postura do Banco Central.
A regra de Taylor é uma fórmula simples que tenta responder a uma pergunta difícil: dada a inflação e o estado da atividade, qual deveria ser a taxa básica de juros? Proposta por John Taylor em 1993, ela virou uma referência universal para avaliar se a política monetária está apertada ou frouxa. No Observatório calculamos a versão com meta de inflação explícita, na forma consagrada por Clarida, Galí e Gertler (1998), adaptada às metas brasileiras.
A fórmula
A taxa nominal implícita i* é a soma de quatro pedaços:
i* = r* + π* + α·(π − π*) + β·hiato
- r* — a taxa de juros real neutra, aquela que nem estimula nem freia a economia. Usamos a hipótese dos modelos do Copom vigente em cada mês; o painel lista, na barra de fórmulas, cada valor e a data em que passou a valer, lidos da própria série, de modo que uma ata nova entra sem que este texto mude. Na revisão de outubro de 2026 eram 5,0% ao ano desde dezembro de 2024 (ata da 267ª reunião), 4,75% desde junho de 2024, 4,5% desde junho de 2023, 4,0% desde junho de 2022, 3,5% desde dezembro de 2021 e 3,0% desde dezembro de 2020. Antes de dezembro de 2020 o Banco Central não publicava esse número; nesses meses usamos o primeiro valor publicado e o painel avisa. As medidas reunidas pelo Banco Central em junho de 2024 iam de 4,7% a 5,5% (entre o 1º e o 3º quartil).
- π* — a meta de inflação vigente, definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Somados, r* e π* dão o juro nominal neutro: o que a regra recomenda quando a inflação está na meta e a economia, no potencial.
- π — a inflação corrente, medida pelo IPCA acumulado em 12 meses.
- hiato — o hiato do produto, quanto a atividade está acima ou abaixo do seu potencial. Aproximamos pelo desvio do IBC-Br dessazonalizado em relação à sua tendência, extraída com o filtro Hodrick-Prescott.
Como referência, o painel mostra também a mesma regra com o hiato do produto do Banco Central no lugar do HP: o cenário de referência do Copom e a faixa entre a menor e a maior das medidas que ele acompanha, do anexo estatístico do Relatório de Política Monetária. O hiato do BCB é trimestral (cada mês recebe o valor do seu trimestre) e cada edição revisa a série inteira, então a linha mostra a leitura atual do BCB, não a que existia em cada data. A diferença entre as duas linhas mostra quanto o resultado depende do hiato: na ponta, o filtro HP é o trecho menos confiável.
Os coeficientes calibrados são α = 1,5 (resposta ao desvio da inflação em relação à meta) e β = 0,5 (resposta ao hiato). O α maior que 1 é o chamado princípio de Taylor: cada ponto de inflação acima da meta pede 1,5 ponto de juro nominal, o que eleva o juro real em meio ponto e de fato freia a inflação.
A forma original de Taylor (1993), i = r* + π + 0,5·(π − π*) + 0,5·hiato, é a mesma regra escrita de outro jeito: como π = π* + (π − π*), os dois termos em inflação também somam 1,5. Somar π (em vez de π*) e ainda aplicar α = 1,5 ao desvio faria a regra responder 2,5 pontos por ponto de inflação — o dobro do que qualquer das duas convenções prescreve.
A variante com expectativas
O painel calcula também a regra com a inflação esperada no lugar da observada: i*e = r* + π* + α·(πe − π*) + β·hiato, em que πe é a expectativa de inflação 12 meses à frente da pesquisa Focus, na última divulgação de cada mês. A lógica é a de Clarida, Galí e Gertler: o Copom reage ao que espera, não ao que já passou. As duas versões divergem quando passado e expectativa se descolam. Em 2021 e 2022 o IPCA acumulado passou de 10% enquanto as expectativas ficaram perto de 5%, e a regra com o IPCA passado pedia um juro vários pontos acima da variante com expectativas. Em agosto de 2026 o sinal é o inverso: a expectativa está um pouco acima do IPCA observado, e a variante sai 0,5 ponto percentual acima da regra com a inflação passada. Nenhuma das duas fecha a distância até a Selic praticada; o que a explica está em Taylor calibrada vs. estimada.
As metas de inflação ao longo do tempo
A meta π* não é fixa. O regime de metas começou em junho de 1999, e as metas anuais do CMN foram: 8,0% (1999), 6,0% (2000), 4,0% (2001), 3,5% (2002), 4,0% (2003), 5,5% (2004), 4,5% de 2005 a 2018, 4,25% (2019), 4,0% (2020), 3,75% (2021), 3,5% (2022), 3,25% (2023) e 3,0% em 2024, valor mantido na meta contínua em vigor desde janeiro de 2025. Em 2003 e 2004 o Banco Central perseguiu "metas ajustadas" (8,5% e 5,5%) anunciadas em carta aberta; usamos a meta formal do CMN. Como a regra compara a inflação com a meta daquele período, ignorar essa trajetória distorceria o gap de inflação nos anos de transição — e antes de 1999 não há meta com que comparar, por isso a regra não é calculada.
Postura monetária
O valor da regra só ganha sentido quando comparado com a Selic que o Copom realmente praticou. Definimos uma banda de tolerância de ±0,5 ponto percentual:
- Selic mais de 0,5 pp acima da taxa de Taylor → postura contracionista (juro mais alto do que a regra sugeriria).
- Selic mais de 0,5 pp abaixo → postura expansionista.
- Dentro da banda → postura neutra.
O que a série cobre
A série começa no primeiro mês em que IPCA 12m, meta e hiato coexistem. Daí em diante a regra é recalculada todo mês que tem IPCA 12m. O IBC-Br sai cerca de um mês depois do IPCA: no mês que ainda não o tem, a taxa usa o hiato do último mês que o tem, e o painel diz de que mês ele veio. Nunca se calcula com hiato zero, e um hiato velho demais não é esticado: sem hiato recente, o mês fica sem a taxa. Esse mês entra só na regra calibrada; a função de reação e a decomposição usam apenas meses com hiato próprio. A Selic e a expectativa do Focus cobrem um trecho mais curto que o IPCA e o IBC-Br, por isso a comparação com a política praticada só existe nos anos mais recentes.
Limitações
A regra calibrada é uma ferramenta didática, não uma previsão da Selic. Ela usa a inflação passada em vez das expectativas (a variante com expectativas troca só esse insumo), ignora a suavização de juros (o Copom move a taxa aos poucos) e depende de r* e do hiato, ambos não observáveis. Há ainda dois detalhes de calendário: o IPCA de um mês só é divulgado no mês seguinte, e a Selic usada é a vigente no fim do mês — o Copom que decidiu naquele mês olhava dados um pouco mais antigos. E a tendência do filtro HP é menos confiável nos últimos meses da série, justamente onde se lê a postura atual. Por tudo isso a regra pode divergir vários pontos percentuais da taxa efetiva. Para uma versão que adere aos dados, veja Taylor calibrada vs. estimada.
Nota de revisão (setembro de 2026)
Até setembro de 2026 esta página somava π em vez de π* na fórmula (resposta total de 2,5 à inflação), usava r* = 3,5%, calculava a regra com hiato zero quando o IBC-Br faltava e começava a série em 1996, antes do regime de metas. Tudo isso foi corrigido e a série histórica foi recalculada.
Nota de revisão (outubro de 2026)
O juro neutro deixou de ser 5,0% fixo em toda a série e passou a ser a hipótese do Copom vigente em cada mês. Antes, os anos de 2016 a 2024 usavam um neutro que o Copom ainda não adotava. O painel ganhou a regra com o hiato do Banco Central como referência.
Nota de revisão (outubro de 2026, 2ª)
Uma reprodução independente do painel, feita em outubro de 2026, confirmou a fórmula e mostrou que nenhuma troca de insumo (juro neutro, hiato, medida de inflação ou coeficientes) fecha a distância entre a Selic e a regra, de 4,7 pontos percentuais em agosto de 2026. Três mudanças vieram daí. A regra ganhou a variante com expectativas descrita acima. A função de reação estimada foi reespecificada (desvio das expectativas em relação à meta, quatro defasagens e repasse integral da meta ao juro nominal), porque a versão anterior, com a expectativa em nível e duas defasagens, era mal identificada. E o painel ganhou um card que decompõe o gap do mês pela identidade do modelo estimado: inércia, resposta à inflação, hiato, neutro e resíduo. Os detalhes estão em Taylor calibrada vs. estimada.