Boletim Semanal
Boletim Semanal · 17 de agosto de 2026
Manchete da semana
A inflação oficial desacelerou em julho, mas os núcleos resistem e as expectativas seguem acima da meta, enquanto o mercado de trabalho surpreende positivamente: a combinação de juros ainda elevados, emprego em alta e dívida pública em trajetória ascendente define o dilema central da política econômica brasileira neste momento.
Destaques em números
- 0,07% ao mês · IPCA (julho de 2026, queda em relação a 0,16% no mês anterior)
- 0,25% ao mês · Núcleos de inflação IPCA EX3 (julho de 2026, alta em relação a 0,22% no mês anterior)
- 5,4% · Taxa de desemprego PNAD Contínua (junho de 2026, queda em relação a 5,6% no mês anterior)
- 145.161 vagas · Saldo líquido do Novo CAGED (junho de 2026, alta em relação a 72.960 vagas no mês anterior)
- 14,00% ao ano · Taxa Selic (agosto de 2026, queda em relação a 14,25% no mês anterior)
- 68,48% do PIB · Dívida líquida do setor público (junho de 2026, alta em relação a 67,89% do PIB no mês anterior)
Inflação
O IPCA registrou variação de 0,07% em julho de 2026, desacelerando ante os 0,16% de junho e acumulando 4,43% nos últimos 12 meses, 1,43 ponto percentual acima do centro da meta contínua de 3,00% ao ano e 0,07 ponto percentual abaixo do teto da banda de tolerância (4,50%). O resultado mensal é o mais baixo de 2026 e sugere alívio pontual de pressões de curto prazo.
O sinal de conforto, porém, deve ser lido com cautela: os núcleos de inflação IPCA EX3 aceleraram para 0,25% em julho, ante 0,22% em junho, acumulando 4,58% em 12 meses. Os núcleos filtram itens voláteis como alimentos e energia e capturam a tendência subjacente dos preços; o fato de avançarem enquanto o índice cheio recua indica que a desinflação ainda não está consolidada nos componentes mais persistentes.
Atividade e emprego
O IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central, proxy mensal do PIB) recuou para 110,22 pontos em junho de 2026, ante 110,93 em maio, sinalizando leve arrefecimento da atividade no início do segundo semestre. Esse movimento coincide com a leitura do modelo IS-LM-PC, que estima o hiato do produto em -0,3% no segundo trimestre de 2026, indicando que a economia opera ligeiramente abaixo do seu potencial.
No mercado de trabalho, os dados contam uma história diferente: o desemprego cedeu para 5,4% em junho, terceira queda mensal consecutiva (6,1% em março, 5,8% em abril, 5,6% em maio), ainda acima da mínima de 5,1% de dezembro, e o saldo do Novo CAGED avançou para 145.161 vagas líquidas, mais que o dobro das 72.960 de maio. A taxa de investimento (FBCF/PIB) subiu para 16,46% do PIB no primeiro trimestre de 2026, ante 16,03% no trimestre anterior, sinal positivo para a capacidade produtiva futura, embora ainda abaixo da média histórica necessária para sustentar crescimento robusto.
Micro em foco
Na comparação anual, os três grandes setores aceleraram em junho: a Produção Industrial Mensal (PIM) avançou 1,7% (ante 0,2% em maio), o comércio (PMC) cresceu 2,9% (ante 0,4%) e os serviços (PMS) expandiram 2,0% (ante 0,7%). Na margem, porém, o quadro é outro: com ajuste sazonal, a indústria recuou 1,8% ante maio, os serviços ficaram estáveis (0,0%) e só o comércio avançou (0,5%). A aceleração anual reflete em boa parte a base fraca de 2025, e o recuo mensal da indústria é coerente com a queda do IBC-Br no mesmo mês.
No crédito, o spread bancário avançou levemente para 21,99 pontos percentuais em junho, ante 21,89 p.p. em maio, mantendo-se próximo da máxima dos últimos 12 meses. O índice de difusão do IPCA recuou para 49,6% em julho, ante 53,6% em junho: isso significa que menos da metade dos itens da cesta de consumo registrou alta de preços no mês, o que é consistente com a desaceleração do índice cheio. O rendimento médio real do trabalho cedeu levemente para R$ 3.621 em junho, ante R$ 3.629 em maio.
Conceito da semana: o spread bancário é a diferença entre a taxa que o banco cobra do tomador de crédito e a taxa que paga ao depositante. Ele reflete custos operacionais, inadimplência esperada, impostos e margem de lucro das instituições. Quando o spread permanece elevado mesmo com a Selic em queda, como ocorre agora, o canal do crédito da política monetária transmite o afrouxamento de forma incompleta à economia real, limitando o estímulo ao consumo e ao investimento.
Juros e câmbio
A taxa Selic recuou para 14,00% ao ano em agosto de 2026, ante 14,25% no período anterior, confirmando o início de um ciclo de afrouxamento monetário pelo Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central). Com inflação acumulada em 12 meses de 4,43%, o juro real ex-ante ainda se situa em patamar elevado, o que tende a conter a demanda e ancorar expectativas.
O câmbio depreciou para R$ 5,22 por dólar em agosto de 2026, ante R$ 5,08 no período anterior, alta de cerca de 2,9%. A depreciação cambial é um fator de atenção para a inflação futura, pois o repasse cambial tende a pressionar preços de bens importados e de commodities cotadas em dólar; o grau e a velocidade desse repasse dependem do nível de ociosidade da economia e das expectativas inflacionárias.
Contas públicas
A dívida bruta do setor público atingiu 81,93% do PIB em junho de 2026, ante 81,05% em maio, enquanto a dívida líquida avançou para 68,48% do PIB, novo máximo dos últimos 12 meses. O resultado primário acumulado em 12 meses piorou para -1,19% do PIB, ante -1,14% em maio, indicando que o setor público consolidado segue gastando mais do que arrecada antes do pagamento de juros.
O resultado nominal acumulado em 12 meses chegou a -9,99% do PIB, o pior da série recente, refletindo o peso dos juros sobre a dívida. A trajetória ascendente da dívida bruta, combinada com déficits primários persistentes, pode pressionar os prêmios de risco e dificultar a convergência das expectativas de inflação à meta, mesmo que o ciclo de cortes da Selic avance.
Expectativas de mercado
O boletim Focus do Banco Central registrou expectativa de inflação para os próximos 12 meses em 4,32% na semana encerrada em agosto de 2026, ante 4,28% na semana anterior, distância de 1,32 ponto percentual acima da meta contínua de 3,00%. A elevação marginal das expectativas, ainda que pequena, reforça a percepção de que a ancoragem inflacionária permanece incompleta, o que tende a limitar o espaço para cortes mais agressivos da Selic pelo Copom.
Cenário externo
Nos Estados Unidos, o CPI (Índice de Preços ao Consumidor americano) desacelerou para 3,30% acumulado em 12 meses até julho de 2026, ante 3,46% em junho, enquanto a taxa Fed Funds permaneceu estável em 3,63% ao ano. O diferencial de juros entre Brasil e EUA segue favorável ao real, mas a depreciação cambial recente sugere que outros fatores, como o risco fiscal doméstico, pesam sobre o fluxo de capitais.
No setor externo, a balança comercial registrou superávit de US$ 3,70 bilhões em junho de 2026, mais que o dobro dos US$ 1,65 bilhão de maio. O IDP (Investimento Direto no País) somou US$ 9,07 bilhões em junho, ante US$ 7,97 bilhões em maio, e as reservas internacionais avançaram para US$ 369,7 bilhões, patamar confortável para absorver choques externos. As transações correntes melhoraram para -2,46% do PIB em 12 meses, ante -2,60%, reduzindo a necessidade de financiamento externo.
Qualidade de vida
Os dados estruturais mais recentes mostram avanços relevantes: a taxa de pobreza (população abaixo de US$ 8,30 por dia em paridade de poder de compra) recuou para 25,2% da população em 2025, ante 26,6% no ano anterior, e o analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais caiu para 4,9%, mínimo da série recente. Em sentido contrário, o Índice de Gini, que mede a desigualdade de renda em uma escala de 0 (igualdade perfeita) a 100 (desigualdade máxima), avançou para 51,1 em 2025, ante 50,4 no ano anterior, sinalizando que a redução da pobreza ainda não se traduziu em distribuição mais equitativa da renda.
Modelos do Observatório
A Regra de Taylor calibrada pelo Observatório aponta taxa implícita de 10,11% ao ano em julho de 2026, bem abaixo da Selic praticada de 14,00%. Vale lembrar que essa regra é uma referência didática baseada em parâmetros estimados, não uma prescrição para o Copom. A função de reação estimada do Copom, que incorpora inércia da própria Selic, projeta 14,23% ao ano para junho de 2026, muito próxima da taxa efetiva de 14,25%, com R² de 0,968 que reflete principalmente a inércia da série, não capacidade preditiva.
O Modelo BC, réplica calibrada do modelo semiestrutural de pequeno porte do Banco Central (coeficientes do Relatório de Inflação de junho de 2024, com hiato estimado por filtro HP em vez de Kalman), projeta IPCA acumulado em quatro trimestres de 2,93% para o segundo trimestre de 2027, abaixo da meta de 3,00%, o que sugere, nesse exercício didático, que a política monetária atual pode ser suficiente para convergir à meta no horizonte relevante. O QPM-lite e as diversas especificações da Curva de Phillips apontam inflação acumulada em 12 meses de 4,44% até julho de 2026, convergindo com o IPCA observado e reforçando que a desinflação tende a ser gradual.
O que observar na próxima semana
- IPCA-15 (agosto de 2026, IBGE): prévia da inflação de agosto, primeiro sinal sobre a trajetória do índice cheio após a desaceleração de julho; relevante para calibrar expectativas do Copom.
- Ata do Copom: publicação esperada com a justificativa detalhada do corte de 0,25 ponto percentual na Selic; o mercado buscará sinais sobre o ritmo e o horizonte do ciclo de afrouxamento.