Boletim Semanal
Boletim Semanal · 24 de agosto de 2026
Manchete da semana
Semana sem grande divulgação mensal, mas com dois movimentos que merecem atenção: a expectativa de inflação do mercado voltou a subir, de 4,31% para 4,42%, e o dólar encareceu para R$ 5,16. O pano de fundo segue o da semana passada: inflação corrente fraca em julho, núcleos resistentes, desemprego em queda e contas públicas pressionadas. Com o juro básico recém-cortado para 14,00%, o mercado testa quanto espaço o Copom realmente tem.
Destaques em números
- 4,42% · Expectativa Focus para o IPCA em 12 meses (agosto de 2026, alta em relação a 4,31% na semana anterior)
- R$ 5,16 por dólar · Taxa de câmbio (agosto de 2026, alta em relação a R$ 5,08 no mês anterior)
- 14,00% ao ano · Taxa Selic (agosto de 2026, queda em relação a 14,25% no mês anterior)
- 0,07% ao mês · IPCA (julho de 2026, queda em relação a 0,16% no mês anterior)
- 5,4% · Taxa de desemprego PNAD Contínua (junho de 2026, queda em relação a 5,6% no mês anterior)
- +145.161 vagas · Saldo do Novo CAGED (junho de 2026, alta em relação a +72.960 no mês anterior)
Inflação
O IPCA variou 0,07% em julho de 2026, o resultado mensal mais baixo do ano, desacelerando ante os 0,16% de junho e acumulando 4,43% em 12 meses. O acumulado segue 1,43 ponto percentual acima do centro da meta contínua de 3,00% ao ano, ainda que dentro da banda de tolerância.
Os núcleos de inflação contam uma história menos confortável: o IPCA EX3 acelerou para 0,25% em julho, ante 0,22% em junho. Núcleos filtram itens voláteis, como alimentos e energia, e capturam a tendência subjacente dos preços; enquanto eles não cederem, a desinflação do índice cheio não pode ser dada como consolidada. Já o índice de difusão reforça o alívio na margem: recuou para 49,6% em julho, ante 53,6% em junho, indicando que menos da metade dos itens da cesta subiu de preço no mês.
Atividade e emprego
O IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central, proxy mensal do PIB) recuou para 110,22 pontos em junho, ante 110,93 em maio, no fechamento do primeiro semestre. A leitura conversa com o modelo IS-LM-PC do Observatório, que estima hiato do produto de -0,3% no segundo trimestre: a economia opera ligeiramente abaixo do potencial.
O mercado de trabalho segue na direção oposta: o desemprego caiu para 5,4% em junho, terceira queda mensal seguida, e o saldo do Novo CAGED somou 145.161 vagas formais líquidas, praticamente o dobro das 72.960 de maio. A taxa de investimento (FBCF/PIB) do primeiro trimestre, de 16,46% do PIB ante 16,03% no trimestre anterior, completa um quadro de demanda ainda firme.
Micro em foco
No crédito, o spread bancário ficou praticamente estável em 21,99 pontos percentuais em junho, ante 21,89 p.p. em maio, patamar que segue limitando a transmissão dos cortes da Selic ao custo final dos empréstimos. O IVG-R, índice de valores de imóveis residenciais apurado nas garantias de financiamentos, subiu para 783,9 pontos em junho; como a série é suavizada pelo BCB e cobre só o mercado financiado, viradas de curto prazo pedem cautela.
O dado novo da semana na renda das famílias é o comprometimento de renda: 28,48% em maio, ante 28,36% em abril. Conceito da semana: o comprometimento de renda mede a fatia da renda mensal das famílias consumida pelo serviço das dívidas, juros mais amortizações. Quando ele sobe num ambiente de juros altos, sobra menos para o consumo corrente, e a política monetária aperta o orçamento doméstico mesmo sem nenhum endividamento novo.
Juros e câmbio
A taxa Selic está em 14,00% ao ano após o corte de 0,25 ponto percentual em agosto, o primeiro do ciclo de afrouxamento. O câmbio, porém, andou na direção contrária: depreciou para R$ 5,16 por dólar em agosto, ante R$ 5,08 em julho, alta de cerca de 1,7%.
Dólar mais caro com Selic em queda e expectativas subindo é uma combinação que merece vigilância: o repasse cambial tende a pressionar os preços de bens importados e de commodities com alguma defasagem, e a intensidade do repasse depende da ociosidade da economia e da ancoragem das expectativas.
Contas públicas
Sem dado novo na semana, vale o retrato de junho: dívida bruta de 81,93% do PIB e dívida líquida de 68,48% do PIB, ambas em alta, com resultado primário de -1,19% do PIB e resultado nominal de -9,99% do PIB acumulados em 12 meses. As estatísticas fiscais de julho, esperadas para o fim do mês, dirão se a trajetória de piora continua.
Expectativas de mercado
O movimento da semana veio do boletim Focus: a mediana para o IPCA em 12 meses subiu para 4,42%, ante 4,31% na leitura anterior, devolvendo a queda da semana passada e ficando 1,42 ponto percentual acima da meta de 3,00%. Expectativas subindo logo após o primeiro corte da Selic sugerem que parte do mercado leu o afrouxamento com desconfiança, o que tende a limitar o ritmo dos próximos passos do Copom.
Cenário externo
Nos Estados Unidos, o CPI (índice de preços ao consumidor americano) desacelerou para 3,30% acumulados em 12 meses até julho, ante 3,46% em junho, com a taxa Fed Funds estável em 3,63% ao ano. O diferencial de juros segue amplo a favor do real, o que torna a depreciação recente do câmbio mais atribuível a fatores domésticos, como o risco fiscal, do que ao ambiente externo.
No setor externo brasileiro, a balança comercial teve superávit de US$ 3,70 bilhões em junho, o IDP (Investimento Direto no País) somou US$ 9,07 bilhões no mesmo mês e as reservas internacionais estavam em US$ 369,7 bilhões em julho. As transações correntes acumulam déficit de 2,46% do PIB em 12 meses, financiado com folga pelo investimento direto.
Qualidade de vida
Os indicadores estruturais são anuais e não tiveram dado novo nesta semana. Valem os marcos de 2025: pobreza em 25,2% da população, analfabetismo em 4,9% das pessoas com 15 anos ou mais e índice de Gini em 51,1, este último em alta ante 50,4 em 2024, sinal de que a queda da pobreza ainda não virou renda mais bem distribuída.
Modelos do Observatório
A Regra de Taylor calibrada pelo Observatório aponta taxa implícita de 10,11% ao ano em julho, bem abaixo da Selic de 14,00%; a regra é referência didática, não prescrição para o Copom. O QPM-lite projeta IPCA acumulado em 12 meses de 4,69% em dezembro de 2026, com banda de 4,47% a 4,91%, acima do teto de tolerância da meta: nesse exercício, a desinflação até a meta não se completa neste ano.
O Modelo BC, réplica calibrada do modelo semiestrutural de pequeno porte do Banco Central, projeta IPCA em quatro trimestres de 2,92% para o segundo trimestre de 2027 no cenário de referência, mas ao custo de uma trajetória de Selic endógena bem mais alta que a atual; como exercício didático com hiato por filtro HP, serve de baliza qualitativa, não de previsão. A série principal exibida nos painéis da Curva de Phillips é a inflação observada, que os modelos tentam explicar, não uma projeção deles.
O que observar na próxima semana
- PNAD Contínua de julho (IBGE): nova leitura do desemprego, que caiu por três meses seguidos; dirá se o mercado de trabalho segue apertado.
- Estatísticas fiscais e de crédito de julho (BCB): dívida, resultado primário e spread atualizados no fim do mês; o fiscal é hoje o principal fator de risco citado para as expectativas.
- Boletim Focus de segunda-feira: mostrará se a alta das expectativas desta semana foi ruído ou início de tendência.