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Boletim semanalConjuntura da semana

Boletim Semanal · 26 de outubro de 2026

Porto de contêineres ao entardecer, com navio atracado, guindastes erguendo containers sem marcações e trabalhadores pequenos ao longo do cais.

Manchete da semana

O balanço de pagamentos de setembro de 2026 trouxe US$ 11,29 bilhões em investimentos diretos no país (IDP), ante US$ 7,40 bilhões em agosto, e reduziu o déficit da conta corrente em 12 meses para 2,33% do PIB, de 2,50%. Na segunda-feira, 26/10, o dólar fechou a R$ 5,5007, alta de 9,2% sobre o fechamento de 23/10 (R$ 5,0377). O pano de fundo segue sendo a inflação: o IPCA acumulou 4,58% em 12 meses até setembro, 0,08 p.p. acima do teto de 4,50%, a poucos dias da reunião do Copom de 4 de novembro.

Destaques em números

  • 4,58% acumulado em 12 meses · IPCA (setembro de 2026, alta em relação ao acumulado anterior de 4,22% em 12 meses)
  • 4,5336% · Expectativas de mercado Focus para inflação em 12 meses (pesquisa de 23/10/2026, alta em relação a 4,5146% na pesquisa de 16/10)
  • 165.827 vagas · Emprego formal — saldo do Novo CAGED (agosto de 2026, alta em relação a 58.568 vagas em julho)
  • 69,27% do PIB · Dívida Líquida do Setor Público (agosto de 2026, alta em relação a 69,11% em julho)
  • 5,5007 R$/US$ · Câmbio (fechamento de 26/10/2026, alta em relação a 5,0377 R$/US$ em 23/10 e a 5,1809 R$/US$ no fim de setembro)
  • 21,16 p.p. · Spread bancário (agosto de 2026, alta em relação a 20,85 p.p. em julho)

Inflação

O IPCA registrou 0,821% em setembro de 2026, revertendo a deflação de 0,3176% observada em agosto. Em 12 meses, o índice acumulou 4,58%, valor que supera em 0,08 p.p. o teto da banda de tolerância de 4,50% e em 1,58 p.p. a meta contínua de 3,00%.

O núcleo de inflação IPCA EX3 registrou 0,26% em setembro, praticamente estável em relação aos 0,27% de agosto, acumulando 4,65% em 12 meses. O núcleo exclui itens de maior volatilidade e serve como termômetro da pressão inflacionária subjacente: o fato de ele permanecer elevado, mesmo com o índice cheio oscilando, sugere que a inflação ainda não cedeu de forma estrutural.

Atividade e emprego

O IBC-Br, proxy mensal do PIB calculado pelo Banco Central, avançou para 110,41 pontos em agosto de 2026, contra 110,03 em julho, indicando continuidade da expansão da atividade econômica na margem. O PIB cresceu 2,0% na comparação interanual no segundo trimestre de 2026, acelerando em relação ao 1,8% do trimestre anterior.

O desemprego ficou em 5,3% em agosto de 2026, estável em relação a julho, enquanto o saldo de empregos formais pelo Novo CAGED somou 165.827 vagas no mesmo mês, bem acima das 58.568 de julho. A taxa de investimento (Formação Bruta de Capital Fixo sobre o PIB) recuou para 16,12% do PIB no segundo trimestre de 2026, contra 16,46% no trimestre anterior, mantendo-se abaixo da média dos últimos 12 trimestres de 16,66%, o que pode limitar o crescimento potencial no médio prazo.

Micro em foco

A Produção Industrial Mensal (PIM) recuou 1,2% em agosto de 2026 na comparação interanual, aprofundando a queda de 0,5% registrada em julho. O comércio varejista (PMC) cresceu apenas 0,4% no mesmo período, desacelerando frente ao 1,3% anterior, e os serviços (PMS) avançaram 0,6%, também abaixo dos 0,9% de julho. O conjunto dos três setores aponta para uma desaceleração da demanda doméstica em agosto.

O spread bancário subiu para 21,16 p.p. em agosto, ante 20,85 p.p. em julho, enquanto o comprometimento de renda das famílias com o serviço da dívida atingiu 28,72% em julho, o maior valor dos últimos 12 meses disponíveis. O rendimento médio real dos trabalhadores chegou a R$ 3.660 em agosto, alta de R$ 17 em relação a julho. O IVG-R, índice de preços de imóveis residenciais do BCB, avançou para 790,08 pontos em julho, o maior valor dos últimos 12 meses da série disponível — mas, por ser suavizado e baseado em avaliações de garantia de financiamentos, movimentos de curto prazo devem ser lidos com cautela.

O conceito relevante desta semana é o de comprometimento de renda: ele mede a parcela da renda das famílias destinada ao pagamento de juros e amortizações de dívidas. Quando esse percentual sobe, sobra menos renda para consumo e poupança, o que pode frear a atividade econômica mesmo quando o emprego está aquecido — exatamente a tensão que os dados de agosto ilustram.

Juros e câmbio

A taxa Selic permaneceu em 13,75% ao ano em outubro de 2026, sem alteração desde a edição anterior. O dólar fechou a R$ 5,0377 em 23/10, abaixo dos R$ 5,1809 do fim de setembro, e saltou para R$ 5,5007 em 26/10, alta de 9,2% em um único dia. Uma desvalorização dessa magnitude, se persistir, tende a pressionar os preços de importados e a inflação, mas a leitura depende de o movimento se sustentar nos próximos fechamentos.

A taxa real do Tesouro IPCA+ de 10 anos recuou para 6,71% ao ano em 23/10, ante 7,36% no fim de setembro, o menor valor dos últimos 12 meses da série disponível. Essa queda nas taxas longas pode sinalizar menor prêmio de risco fiscal ou expectativa de afrouxamento monetário à frente, mas a leitura deve ser feita com cautela diante da inflação ainda acima do teto.

Contas públicas

A dívida bruta do setor público avançou para 82,87% do PIB em agosto de 2026, ante 82,55% em julho, enquanto a dívida líquida subiu para 69,27% do PIB, o maior valor dos últimos 12 meses da série disponível. O resultado nominal acumulado em 12 meses piorou para -9,48% do PIB, ante -9,35% no mês anterior, refletindo o peso dos juros sobre a dívida.

O resultado primário acumulado em 12 meses melhorou marginalmente, passando de -0,67% do PIB para -0,62% em agosto. O primário exclui os juros da dívida: quando é negativo, o governo gasta mais do que arrecada antes do pagamento de encargos financeiros, o que tende a pressionar a trajetória da dívida no médio prazo.

Expectativas de mercado

O boletim Focus divulgado em 26 de outubro de 2026 (pesquisa de 23/10) registrou expectativa de inflação em 12 meses de 4,5336%, alta em relação aos 4,5146% da pesquisa de 16/10, e 1,53 p.p. acima da meta contínua de 3,00%. A persistência das expectativas acima do teto da banda de tolerância é um sinal de alerta para o Copom, pois expectativas desancoradas tendem a se autorrealizar via formação de preços e salários.

Cenário externo

O saldo da balança comercial de bens somou US$ 6,87 bilhões em setembro de 2026, acima dos US$ 6,14 bilhões de agosto, mantendo o setor externo como fonte de sustentação da atividade. Os investimentos diretos no país (IDP) totalizaram US$ 11,29 bilhões em setembro, ante US$ 7,40 bilhões em agosto, enquanto as reservas internacionais recuaram para US$ 362,82 bilhões em setembro, ante US$ 372,62 bilhões no mês anterior.

Nos Estados Unidos, o CPI (Índice de Preços ao Consumidor americano) acelerou para 3,72% em 12 meses até setembro de 2026, ante 3,35% em agosto, enquanto a taxa efetiva média dos Fed Funds subiu para 3,75% ao ano em setembro, refletindo a alta de 0,25 p.p. decidida pelo Fed em 17/09, que levou o intervalo da meta para 3,75% a 4,00%. A combinação de inflação em alta e juros ainda elevados nos EUA pode reduzir o diferencial de juros favorável ao Brasil e pressionar o fluxo de capitais para economias emergentes. A conta corrente brasileira acumulou déficit de 2,33% do PIB em 12 meses até setembro, menor que os 2,50% até agosto.

Qualidade de vida

Com dados novos disponíveis nesta edição, a taxa de analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais recuou para 4,9% em 2025, o menor valor da série disponível, iniciada em 2016, ante 5,3% em 2024. A pobreza (população abaixo de US$ 8,30 por dia em paridade de poder de compra) cedeu para 25,21% em 2025, também o menor valor dos últimos 12 anos da série, enquanto o Índice de Gini subiu para 51,13 em 2025, ante 50,45 em 2024, indicando que a desigualdade de renda avançou mesmo com a queda da pobreza — uma combinação que merece acompanhamento, pois crescimento da renda média não garante distribuição mais equânime.

Modelos do Observatório

A Regra de Taylor calibrada aponta taxa implícita de 9,83% ao ano em setembro de 2026, 3,92 p.p. abaixo da Selic praticada de 13,75%. Esse distanciamento é esperado: a regra é uma referência didática que não captura todos os fatores considerados pelo Copom, como inércia de decisão, incerteza e comunicação prospectiva. Separadamente, a função de reação estimada do Copom ajusta 14,16% ao ano em agosto de 2026 contra a Selic de 14% naquele mês, com R² de 0,996 — mas esse ajuste elevado reflete principalmente a inércia da própria Selic defasada, com meia-vida de 9,8 meses, e não deve ser lido como previsão.

O Modelo BC, réplica calibrada do modelo semiestrutural de pequeno porte do BCB (coeficientes do Relatório de Inflação de junho de 2024), projeta inflação de 2,20% acumulada em quatro trimestres para o terceiro trimestre de 2027, no cenário de regra de Taylor endógena; para chegar lá, esse cenário leva a Selic a 22,4% e o hiato do produto a -4,8%, uma trajetória bem mais dura que a praticada. O QPM-lite projeta inflação de 4,66% (banda de ±1 desvio padrão: 4,00% a 5,32%) em 12 meses até fevereiro de 2027. As projeções dos dois modelos divergem de forma relevante, o que ilustra a sensibilidade dos resultados às hipóteses de cada arcabouço — ambos são exercícios didáticos do Observatório e não representam a projeção oficial do Copom.

O que observar nos próximos dias

  • PNAD Contínua mensal (IBGE) — sexta-feira, 30/10: atualização da taxa de desemprego e dos indicadores de mercado de trabalho; dado relevante para avaliar se o aquecimento do emprego formal do CAGED se confirma na pesquisa domiciliar.
  • Boletim Focus (BCB) — terça-feira, 03/11, por causa do feriado de Finados: nova leitura das expectativas de mercado para inflação, câmbio e juros; atenção à evolução das projeções para 2026 e 2027 às vésperas do Copom.
  • Boletim Focus (BCB) — segunda-feira, 02/11: nova leitura das expectativas de mercado para inflação, câmbio e juros; atenção à evolução das projeções para 2026 e 2027 às vésperas do Copom.
  • PIM-PF Brasil (IBGE) — quinta-feira, 05/11: produção industrial de setembro; dado importante para verificar se a queda interanual de agosto foi pontual ou sinaliza tendência de desaceleração industrial.

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