Métodos Estatísticos
Estatística das urnas: como os Boletins de Urna de 2026 são testados
Os testes de consistência estatística aplicados a cada Boletim de Urna das Eleições 2026: o que cada um mede, o que não prova, como foram validados e o que fica fora.
Observatório BR — nota metodológica da página Estatística das urnas. Os números de cada UF estão na página; este texto descreve o método.
O que a página faz e o que ela não faz
Cada seção eleitoral produz um Boletim de Urna (BU), publicado pelo TSE no portal de resultados. A página lê os BUs de todas as seções com urna própria, UF por UF, e aplica testes que a literatura de forense eleitoral usa para medir se um conjunto de contagens se comporta como uma contagem comum. Desvio estatístico não é prova de irregularidade. Cada teste tem explicações sem nenhuma interferência para o mesmo sinal, e a página as escreve ao lado do resultado. Ela também não verifica a assinatura digital dos boletins: para isso o TSE oferece ferramentas próprias.
De onde vêm os dados
- Lista de seções: o arquivo de configuração de seções de cada UF, que diz também quais seções foram agregadas a outra (essas não têm urna própria e ficam fora).
- Índice da seção: a situação, o hash do BU e o horário em que o TSE o recebeu.
- Boletim de Urna: eleitores aptos, comparecimento e votos de cada cargo, local de votação, horário de abertura e de encerramento, e o bloco da urna (tipo, versão do software, número interno, código e data da carga). A leitura só é aceita se, em cada cargo, a soma dos votos fechar com o comparecimento (duas vezes o comparecimento no senado de 2026).
- Totalização oficial: o resultado do TSE para o cargo na UF, usado na reconciliação.
Os horários do BU são os do relógio da urna, no fuso local. A votação de 2026 foi das 8h às 17h de Brasília no país inteiro, e a página converte os horários com um fuso por UF. Limitação declarada: o oeste do Amazonas e Fernando de Noronha têm fuso diferente do resto da UF.
Múltiplas comparações
Com centenas de milhares de seções e dezenas de milhares de locais de votação, qualquer limiar fixo marca muitos casos por puro acaso. Os testes que avaliam locais um a um usam o procedimento de Benjamini e Hochberg (1995), que controla a taxa de falsas descobertas em 5%: entre os locais sinalizados, espera-se que no máximo 5% o sejam por acaso, e a página mostra esse número.
Os testes
Integridade e reconciliação
A primeira pergunta é contábil. Quantas seções têm BU, quantos BUs não passaram na conferência de somas e se a soma dos BUs, candidato a candidato, bate com a totalização oficial da UF. A reconciliação só é conclusiva quando todas as seções foram lidas; voto em candidato com registro sub judice entra no BU e pode não entrar no total oficial dele.
Votos na urna, comparecimento e abstenção
A distribuição do comparecimento por seção (votos na urna sobre eleitores aptos) e a do número de votos em cada urna. Enchimento de urna engordaria a cauda de 100%; supressão, a cauda baixa. Com voto obrigatório a distribuição é concentrada, e seções pequenas, aldeias e presídios produzem caudas legítimas. A abstenção é tratada à parte: distribuição, abstenção por tamanho de seção e a correlação, dentro de cada local de votação, entre abstenção e a proporção do candidato líder.
Impressão digital
Klimek, Yegorov, Hanel e Thurner (PNAS, 2012) propuseram o histograma em duas dimensões do comparecimento contra a proporção do vencedor. Enchimento desloca seções para o canto em que as duas grandezas se aproximam de 100%. É um retrato, sem valor-p: Mebane e Kalinin mostraram que eleitorados muito homogêneos produzem manchas parecidas.
Dígitos
Último dígito. Em contagens reais acima de algumas dezenas, o último dígito é uniforme; pessoas que inventam números evitam repetições e preferem certos dígitos (Beber e Scacco, Political Analysis, 2012). A página aplica um qui-quadrado com nove graus de liberdade às contagens a partir de dez votos. O teste tem pouca potência contra alterações pequenas: passar nele não é atestado.
Segundo dígito de Benford. Proposto por Mebane (2006) e criticado por Deckert, Myagkov e Ordeshook (2011), que mostraram eleições sem interferência fora da lei conforme a distribuição de tamanhos das seções. Aparece só como referência, sem semáforo. O primeiro dígito não se aplica a contagens por seção, que ficam entre poucas dezenas e algumas centenas.
Seções irmãs do mesmo local de votação
É o teste que os dados brasileiros permitem fazer melhor. As seções de uma mesma escola recebem eleitores do mesmo lugar, de modo que funcionam como amostras do mesmo eleitorado. Para cada local com duas ou mais seções, o qui-quadrado de Pearson mede quanto a proporção do líder varia entre elas além da variação binomial. Como as seções são formadas por ordem de inscrição, há diferenças reais (idade, tempo de domicílio) e a variação típica é maior que a binomial. A página estima essa variação típica no conjunto da UF (o parâmetro de dispersão de um modelo quase-binomial), testa cada local contra ela e aplica Benjamini-Hochberg. O mesmo é feito para a abstenção.
Fluxo de votos
Myagkov, Ordeshook e Shakin (The Forensics of Election Fraud, 2009) olham a relação entre votos do candidato e comparecimento. Dentro de um local de votação, cada eleitor a mais que compareceu deveria, em média, se dividir como o local. Se abstenções fossem convertidas em votos para um lado, a inclinação de votos contra comparecimento passaria da proporção média. A página estima essa inclinação com efeito fixo de local e erro padrão agrupado por local. Mobilização real também inclina a reta.
Encerramento, transmissão e recebimento no TSE
- Abertura e encerramento, no horário de Brasília. Pela regra geral, a seção só encerra antes das 17h quando todos os aptos já votaram; encerramento antecipado com eleitores faltando é contado à parte.
- Do encerramento ao recebimento: o tempo até o TSE receber o BU. Recebido antes do encerramento seria impossível e indica relógio da urna errado; atrasos de horas são esperados onde a mídia é levada fisicamente.
- Proporção por hora de recebimento: crua, ela varia porque regiões diferentes transmitem em horários diferentes e votam diferente. Por isso a página compara cada seção com as irmãs do mesmo local, cuja ordem de transmissão varia em minutos; a inclinação dentro do local deveria ser zero.
- Curva da apuração: os BUs somados na ordem em que chegaram reproduzem a forma da curva que se vê na noite da apuração, sem nenhum dado além dos boletins.
Coerência entre cargos
Presidente, governador e senador saem da mesma urna. Governador e senador têm de ter o mesmo comparecimento; o de presidente pode ser maior, porque o eleitor em trânsito fora da sua UF vota só para presidente. Por isso a diferença entre presidente e os cargos estaduais não é sinal de erro. A página também mostra a correlação, dentro do local, entre os líderes de cada cargo, que reflete alinhamento político.
Desdobramento por urna
A proporção do líder e o comparecimento por tipo de urna (seção, contingência), versão do software e faixa do número interno. Cru, cada grupo carrega a geografia: urnas mais antigas e de contingência não se distribuem igualmente pelo território. Por isso a página estima a diferença entre seções da mesma escola, com efeito fixo de local de votação e erro padrão agrupado por município. A diferença esperada dentro do local é zero. O modelo da urna não vem nomeado no BU, e as faixas do número interno são oitavos da distribuição da UF, não modelos.
Comparação com a eleição anterior
Com o resultado por seção de 2022 (arquivo dos dados abertos do TSE), cada local de votação presente nos dois anos é comparado consigo mesmo: abstenção e proporção do mesmo número de candidato. Uma reta entre os dois anos resume a relação, e os locais que mais se afastam dela são contados contra o número que se esperaria ao acaso. Troca de candidato, mudança de eleitorado e realinhamento regional também afastam locais da reta.
Como os testes foram validados
Cada teste foi verificado contra eleições sintéticas geradas com distribuição conhecida: locais de votação com proporção e comparecimento próprios e votos binomiais dentro do local. Na eleição limpa, nenhum teste aponta desvio além do acaso. Em versões adulteradas de propósito, cada teste aponta a adulteração que lhe cabe: contagens arredondadas (último dígito), uma seção deslocada por local (seções irmãs), abstenções convertidas em votos (fluxo de votos), urnas cheias (impressão digital e comparecimento de 100%), seções que chegam tarde favorecidas (proporção por hora), urnas de contingência favorecidas (desdobramento por urna) e um local cuja abstenção mudou entre os anos (comparação com a eleição anterior). Os testes ficam no código-fonte do site, ao lado do cálculo.
O que fica fora
- A assinatura digital dos boletins não é verificada.
- Deputados federais e estaduais não entram: os testes usam os cargos majoritários.
- Dois campos do BU de 2026 não têm documentação pública e são guardados sem interpretação; por isso eleitores liberados por código e habilitação biométrica ainda não entram nos testes.
- A autocorrelação espacial dos desvios e o modelo de mistura de Mebane ficam para pesquisa, fora da página.
- O modelo da urna não vem nomeado no BU; a página mostra tipo, versão do software e faixa do número interno.
- Nenhum teste atribui intenção, autoria ou efeito sobre o resultado.