Boletim semanalConjuntura da semana
Boletim Semanal · 28 de setembro de 2026
Manchete da semana
A balança comercial brasileira registrou superávit de US$ 1.371,1 milhões em agosto de 2026, salto expressivo ante os US$ 161,9 milhões de julho, sinalizando que o setor externo segue como amortecedor relevante da economia num momento em que a atividade doméstica dá sinais de desaceleração. Ao mesmo tempo, as expectativas de inflação no Focus recuaram levemente, de 4,73% para 4,70% para os próximos 12 meses, mas permanecem 1,70 ponto percentual acima da meta contínua de 3,00%, mantendo o dilema do Banco Central entre afrouxar os juros e reconquistar a ancoragem.
Destaques em números
- US$ 1.371,1 milhões · Superávit da balança comercial (agosto/2026, alta expressiva ante US$ 161,9 mi em julho)
- 4,70% a.a. · Expectativa de inflação 12 meses no Focus (semana de 28/set/2026, queda de 0,03 p.p. ante 4,73%)
- 5,1991 R$/US$ · Câmbio USD/BRL (setembro/2026, alta de R$ 0,0175 ante a média de agosto)
- -2,47% do PIB · Transações correntes acumuladas em 12 meses (agosto/2026, leve piora ante -2,44% em julho, revisado)
- US$ 7.396,1 milhões · Investimentos Diretos no País — IDP (agosto/2026, alta de US$ 427,8 mi ante julho, revisado)
- 13,75% a.a. · Selic (setembro/2026, estável ante semana anterior, mínima dos últimos 12 meses)
Inflação
O IPCA registrou -0,32% em agosto de 2026, a maior deflação mensal dos últimos 12 meses nessa série, revertendo a alta de 0,07% de julho. O acumulado em 12 meses cedeu para 4,22%, valor que fica 1,22 ponto percentual acima da meta de 3,00% e 0,28 p.p. abaixo do teto de 4,50%, mantendo a inflação dentro da banda de tolerância.
Os núcleos de inflação (IPCA EX3) avançaram para 0,27% em agosto, ante 0,25% em julho, acumulando 4,45% em 12 meses. Esse movimento sugere que a deflação do índice cheio reflete componentes voláteis, enquanto a pressão subjacente de preços permanece acima da meta, o que tende a manter o Banco Central cauteloso no ritmo de cortes da Selic.
Atividade e emprego
Sem dado novo nesta semana para o IBC-Br (proxy mensal do PIB), o PIB e o desemprego, os números mais recentes disponíveis apontam para uma economia em desaceleração moderada: o IBC-Br recuou de 110,16 para 109,92 em julho, o desemprego pela PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) ficou em 5,3% em julho, e o saldo do CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) gerou 58.568 vagas formais no mesmo mês, bem abaixo das 145.161 de junho. A taxa de investimento (FBCF/PIB) permanece em 16,1% do PIB no segundo trimestre, abaixo da média dos últimos 12 trimestres, de 16,7%, o que pode limitar o crescimento potencial adiante.
Micro em foco
Sem atualizações nesta semana para PIM, PMC e PMS, o quadro setorial mais recente mostra desaceleração generalizada: indústria em -0,5% a.a., comércio em 1,2% a.a. e serviços em 0,9% a.a. em julho. O comprometimento de renda das famílias com o serviço da dívida atingiu 28,85% da renda em junho, o maior patamar dos últimos 12 meses, enquanto o rendimento médio real ficou em R$ 3.644 em julho, alta modesta de R$ 13 ante junho.
O spread bancário recuou para 20,88 pontos percentuais em julho, ante 21,86 p.p. em junho, o menor nível de 2026. Essa queda é bem-vinda, mas o nível ainda elevado do spread comprime a capacidade de consumo e investimento das famílias, especialmente num contexto de alto comprometimento de renda.
O conceito que ilumina esses dados é o de comprometimento de renda: ele mede a fatia da renda familiar destinada ao pagamento de juros e amortizações de dívidas. Quando esse percentual sobe, as famílias têm menos margem para consumir e poupar, o que tende a frear a atividade econômica mesmo quando os juros começam a cair, pois o estoque de dívida contratado a taxas mais altas demora a ser refinanciado.
Juros e câmbio
A Selic permanece em 13,75% a.a. nesta semana, mínima do ciclo atual, após o corte de 0,25 ponto percentual na reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) de setembro. O câmbio avançou para R$ 5,1991 por dólar, alta de R$ 0,0175 ante a média de agosto, mantendo-se dentro do intervalo recente, mas ainda pressionado pela combinação de expectativas de inflação acima da meta e incertezas fiscais.
Com a Selic em queda e as expectativas de inflação resistentes, o juro real ex-ante segue elevado, o que tende a sustentar algum fluxo de capital externo, mas também encarece o crédito doméstico e o serviço da dívida pública. A trajetória do câmbio nas próximas semanas dependerá, em parte, da velocidade com que as expectativas de inflação se reaproximarem da meta.
Contas públicas
Sem atualizações nesta semana, os dados mais recentes mostram que a dívida bruta do setor público atingiu 82,56% do PIB em julho, novo máximo dos últimos 12 meses, enquanto a dívida líquida chegou a 69,13% do PIB, também o maior valor da série recente. O resultado primário acumulado em 12 meses melhorou para -0,67% do PIB em julho, ante -1,19% em junho, indicando uma trajetória de ajuste, ainda que o setor público consolidado siga em déficit primário.
O resultado nominal (que inclui os juros da dívida) permanece em -9,35% do PIB em 12 meses, refletindo o peso dos encargos financeiros sobre as contas públicas. A sustentabilidade da dívida depende da combinação entre crescimento econômico, resultado primário e custo médio da dívida: qualquer deterioração simultânea nessas três frentes pode acelerar a trajetória ascendente do endividamento.
Expectativas de mercado
O boletim Focus da semana de 28 de setembro de 2026 registrou expectativa de inflação para os próximos 12 meses em 4,70%, recuo de 0,03 ponto percentual ante os 4,73% da semana anterior. Esse valor permanece 1,70 p.p. acima da meta contínua de 3,00%, sinalizando que o mercado ainda não vê a convergência da inflação à meta no horizonte relevante, o que tende a limitar o espaço para novos cortes expressivos da Selic.
Cenário externo
A balança comercial brasileira avançou para superávit de US$ 1.371,1 milhões em agosto de 2026, ante apenas US$ 161,9 milhões em julho, reforçando o papel do setor externo como fonte de divisas. As reservas internacionais atingiram US$ 372.616 milhões em agosto, o maior patamar dos últimos 12 meses, enquanto as transações correntes acumuladas em 12 meses ficaram em -2,47% do PIB, leve piora ante os -2,44% de julho (revisado).
Os Investimentos Diretos no País (IDP) somaram US$ 7.396,1 milhões em agosto, alta ante os US$ 6.968,3 milhões de julho (dado revisado), em patamar robusto. Nos EUA, o CPI (Índice de Preços ao Consumidor americano) acelerou levemente para 3,35% em 12 meses em agosto, mantendo a taxa do Fed Funds (banco central americano) em 3,63% a.a., o que preserva um diferencial de juros favorável ao Brasil e tende a sustentar o fluxo de capitais para economias emergentes, embora a persistência da inflação americana possa adiar novos cortes do Fed e reduzir esse diferencial no médio prazo.
Qualidade de vida
Sem dados novos nesta semana, o pano de fundo estrutural é de avanços recentes: a taxa de pobreza (população abaixo de US$ 8,30 PPC por dia) recuou para 25,2% em 2025, ante 26,6% em 2024, e o analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais caiu para 4,9% em 2025. Em sentido contrário, o Índice de Gini (medida de desigualdade de renda, em que valores mais altos indicam maior desigualdade) subiu para 51,1 em 2025, ante 50,4 em 2024, sinalizando que a redução da pobreza ainda não se traduziu em distribuição de renda mais equânime.
Modelos do Observatório
A Regra de Taylor calibrada pelo Observatório aponta taxa implícita de 9,50% a.a. em julho de 2026, valor 4,25 pontos percentuais abaixo da Selic praticada de 13,75%. Essa distância é esperada: a Regra de Taylor é uma referência didática que simplifica a função de reação do Banco Central, e o Copom incorpora outros elementos, como inércia e gestão de expectativas. A função de reação estimada do Copom (que usa expectativas Focus e inércia da própria Selic) ajustou 14,09% a.a. em julho, muito próxima da Selic de 14,25% vigente naquele momento, com R² de 0,971, o que descreve bem o comportamento passado do Copom, mas reflete sobretudo a alta inércia da taxa, não capacidade preditiva.
O QPM-lite (modelo de projeção trimestral do Observatório) projeta inflação de 4,67% para o primeiro trimestre de 2027 (banda ±1σ: 4,41% a 4,94%), ainda acima da meta. A réplica calibrada do Modelo BC semiestrutural projeta IPCA de 2,98% para o segundo trimestre de 2027 no cenário de regra de Taylor endógena, sugerindo convergência à meta no horizonte mais longo. Esses exercícios são didáticos e simplificam o modelo oficial do BCB (usam filtro HP em vez de Kalman para o hiato): não representam a projeção oficial do Copom.
O que observar na próxima semana
- IPCA-15 de setembro (IBGE): prévia da inflação de setembro, primeiro sinal sobre se a deflação de agosto foi pontual ou inaugura tendência de desaceleração mais duradoura.
- Nota de Crédito do BCB (Banco Central do Brasil): atualização de spread, concessões e inadimplência em agosto, relevante para avaliar se o ciclo de cortes da Selic já se transmite ao custo do crédito para famílias e empresas.
- Resultado Primário do Setor Público (BCB, referência agosto): dado fiscal mensal que permitirá avaliar se a melhora do acumulado em 12 meses observada em julho tem continuidade.
- Boletim Focus (BCB, toda segunda-feira): acompanhamento das expectativas de inflação, que permanecem 1,70 p.p. acima da meta e são variável-chave para a próxima decisão do Copom.
- Produção Industrial (PIM-PF) e Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) de agosto (IBGE): dados setoriais que ajudarão a calibrar a leitura de atividade após a desaceleração registrada em julho.
Atualizado em 05/10/2026: corrigidos o IPCA acumulado em 12 meses (4,22%, e não 3,71%) e as comparações de transações correntes, IDP, câmbio, spread e taxa de investimento.
Continue lendo
Leia também
Boletim semanalBoletim Especial · Nobel de Economia 2026Robert E. Hall (Stanford) e Michael Woodford (Columbia) receberam em 12 de outubro o Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel de 2026 "pelos fundamentos microeconômicos da estabilização macroeconômica". Os dois reconstruíram o modelo keynesiano a partir das decisões de famílias e empresas que olham para o futuro, e esse arcabouço, o novo-keynesiano, é o que os bancos centrais usam hoje para decidir juros, inclusive o Banco Central do Brasil. Esta edição especial explica os dois modelos premiados e mostra onde eles aparecem nos painéis do Observatório BR, da Selic à regra de Taylor. AtividadeServiços crescem 0,6% em agosto de 2026, ritmo mais lento que julhoO setor de serviços brasileiro registrou crescimento de 0,6% em agosto de 2026 na comparação com o mesmo mês do ano anterior, segundo a PMS (Pesquisa Mensal de Serviços) do IBGE. O resultado representa uma desaceleração em relação ao 0,9% registrado em julho, uma variação de -0,3 ponto percentual na margem. Ainda assim, o setor segue em território positivo, acumulando 29 períodos consecutivos com crescimento acima de zero. Trabalho e rendaDesemprego fica em 5,3% pelo segundo mês seguido em agosto de 2026A taxa de desemprego no Brasil, medida pela PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) do IBGE, ficou em 5,3% em agosto de 2026, repetindo o resultado de julho e mantendo estabilidade na margem. Dentro da janela dos últimos 12 meses, a taxa oscilou entre o mínimo de 5,1% em dezembro de 2025 e o máximo de 6,1% em março de 2026, sugerindo um ciclo de elevação no início do ano seguido de recuo gradual.