Boletim semanalConjuntura da semana
Boletim Semanal · 05 de outubro de 2026
Manchete da semana
O mercado formal de trabalho voltou a acelerar em agosto de 2026: o saldo do Novo CAGED foi de 165.827 vagas líquidas, quase o triplo das 58.568 de julho e o maior resultado desde março. A geração de empregos ocorre com a taxa de desemprego (PNAD Contínua) estável em 5,3% e o rendimento médio real em alta, para R$ 3.660, o que mantém o mercado de trabalho como principal sustentáculo da demanda doméstica. O contraponto está na oferta e no crédito: a indústria aprofundou a queda para -1,2% na comparação anual, o spread bancário voltou a subir e, lá fora, o Federal Reserve elevou os juros em setembro.
Destaques em números
- 165.827 vagas · Saldo do Novo CAGED (agosto/2026, ante 58.568 em julho; maior desde março)
- R$ 3.660 · Rendimento médio real dos trabalhadores (agosto/2026, ante R$ 3.643 em julho; +3,5% em um ano)
- -1,2% · Produção industrial ante agosto de 2025 (era -0,5% em julho; -0,6% na margem)
- 82,86% do PIB · Dívida bruta (agosto/2026, alta de 0,30 p.p. ante julho, novo máximo)
- 4,65% a.a. · Focus — expectativa de inflação 12 meses (02/10/2026, ante 4,70% na semana anterior; a projeção para 2026 subiu para 5,01%)
- 3,75% a 4,00% · Meta dos Fed Funds após a alta de 0,25 p.p. em setembro (taxa efetiva média do mês: 3,75%, ante 3,63%)
Inflação
Sem dado novo nesta semana: o IPCA registrou -0,32% em agosto de 2026, ante +0,07% em julho, a menor variação mensal dos últimos 12 meses. No acumulado de 12 meses, o índice marca 4,22%, 1,22 p.p. acima da meta contínua de 3,00% e 0,28 p.p. abaixo do teto de 4,50%: dentro do intervalo de tolerância, mas por pouca margem. A prévia de setembro já apontou reversão — o IPCA-15 subiu 0,70% no mês e acumula 4,47% em 12 meses —, e o IPCA fechado de setembro sai nesta sexta-feira (09/10).
Os núcleos de inflação (IPCA EX3) avançaram levemente, de 0,25% para 0,27% em agosto, acumulando 4,45% em 12 meses. A divergência entre o IPCA cheio negativo no mês e núcleos positivos é um sinal de atenção: o índice cheio foi puxado por componentes voláteis, enquanto a pressão subjacente persiste, o que tende a limitar o espaço para afrouxamento monetário.
Atividade e emprego
O desemprego permaneceu estável em 5,3% em agosto (5,6% um ano antes), e o saldo do CAGED saltou para 165.827 vagas, acumulando cerca de 890 mil postos formais em 12 meses. A geração de vagas segue robusta e sustenta a renda das famílias mesmo num ambiente de crédito mais caro. Já o IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central, proxy mensal do PIB), ainda sem o dado de agosto, recuou de 110,16 para 109,92 em julho, praticamente na média dos últimos 12 meses (109,88), sem sinalizar aceleração.
No lado do investimento, a taxa de investimento (FBCF/PIB) ficou em 16,1% do PIB no segundo trimestre de 2026, abaixo da média de 16,5% dos últimos quatro trimestres, e a produção de bens de capital caiu 4,1% em agosto na comparação com agosto de 2025, contração um pouco menor que os -4,6% de julho. A persistência de queda na produção de bens de capital levanta dúvidas sobre a capacidade de expansão futura da economia, pois investimento hoje é capacidade produtiva amanhã.
Micro em foco
A Produção Industrial Mensal (PIM) aprofundou a contração para -1,2% em agosto ante o mesmo mês de 2025 (era -0,5% em julho), com queda de 0,6% na margem; comércio e serviços seguem sem dado novo. O quadro sugere que a demanda por bens manufaturados segue pressionada, possivelmente pelo custo do crédito: o spread bancário voltou a 21,16 pontos percentuais em agosto, ante 20,85 p.p. em julho, e a inadimplência das famílias chegou a 6,61%. O comprometimento de renda das famílias com o serviço da dívida subiu para 28,72% em julho (ante 28,66% em junho, revisado), novo máximo dos últimos 12 meses.
O IVG-R (Índice de Valores de Garantia de Imóveis Residenciais Financiados) avançou para 790,08 em julho, alta de 5,3% em 12 meses, refletindo valorização contínua dos imóveis usados como garantia em financiamentos. Vale lembrar que o IVG-R é uma proxy do mercado financiado, não do mercado imobiliário como um todo, e a série é suavizada pelo BCB: movimentos de curto prazo devem ser interpretados com cautela.
O conceito que ilumina o dado desta semana é o de massa salarial: trata-se do produto entre o número de trabalhadores ocupados e o rendimento médio. Quando emprego e salário real crescem simultaneamente, como ocorre agora, a massa salarial se expande e tende a sustentar o consumo das famílias, mesmo que o crédito esteja mais caro, porque parte da demanda é financiada por renda corrente, não por endividamento.
Juros e câmbio
A taxa Selic segue em 13,75% ao ano, nível definido pelo Copom em setembro, depois de um ciclo de cortes que a trouxe de 15,00%; o Focus projeta 13,50% para o fim do ano. O câmbio (USD/BRL) subiu para R$ 5,22 na média parcial de outubro, ante R$ 5,18 em setembro, dentro da faixa recente de oscilação (mínimo de R$ 4,99 e máximo de R$ 5,50 nas médias mensais dos últimos 12 meses).
A combinação de spread bancário em alta e câmbio levemente depreciado sugere que as condições financeiras permanecem restritivas para famílias e empresas, mesmo com a taxa básica abaixo do pico do ciclo. O repasse cambial para a inflação tende a ser moderado no nível atual do câmbio, mas uma depreciação adicional — mais provável com juros americanos em alta — poderia reacender pressões sobre bens comercializáveis.
Contas públicas
A dívida bruta do setor público avançou para 82,86% do PIB em agosto de 2026, alta de 0,30 p.p. ante julho (82,56%) e novo máximo da série recente, enquanto a dívida líquida subiu para 69,26% do PIB (+0,13 p.p.). O resultado primário acumulado em 12 meses melhorou marginalmente, de -0,67% para -0,62% do PIB, ainda em território deficitário. O resultado nominal (que inclui os juros da dívida) piorou de -9,35% para -9,48% do PIB, refletindo o custo elevado do estoque de dívida num ambiente de juros altos.
A trajetória da dívida bruta depende não só do resultado primário, mas também do diferencial entre a taxa de juros implícita da dívida e o crescimento nominal do PIB: enquanto os juros reais permanecerem elevados e o crescimento for moderado, a dinâmica da dívida tende a ser desfavorável mesmo com ajuste fiscal em curso.
Expectativas de mercado
O boletim Focus de 2 de outubro registrou recuo das expectativas de inflação para os próximos 12 meses, de 4,70% para 4,65%, ainda 1,65 p.p. acima da meta contínua de 3,00%. Por ano-calendário o sinal é menos favorável: a mediana para o IPCA de 2026 subiu de 4,99% para 5,01%, acima do teto da meta, com 4,30% em 2027 e 3,80% em 2028. Para a Selic, o mercado segue vendo 13,50% no fim de 2026 e 12,00% em 2027; para o PIB, 1,85% em 2026 e 1,40% em 2027. Expectativas desancoradas tendem a se autovalidar via inércia inflacionária, dificultando a convergência da inflação efetiva à meta.
Cenário externo
O Federal Reserve elevou em setembro a meta dos Fed Funds em 0,25 ponto percentual, para o intervalo de 3,75% a 4,00%; a taxa efetiva média do mês subiu para 3,75% ao ano, ante 3,63% em agosto, e ainda não reflete um mês inteiro no novo patamar. O movimento responde a um CPI americano que acelerou para 3,35% em 12 meses em agosto. O diferencial de juros entre Brasil e EUA permanece amplo, mas estreita-se nas duas pontas — Selic em queda, Fed Funds em alta —, o que pode pressionar o câmbio.
Sem dado novo nesta semana no balanço de pagamentos, as reservas internacionais estão em US$ 372,6 bilhões (agosto), o maior nível dos últimos 12 meses, e o Investimento Direto no País (IDP) somou US$ 7,4 bilhões no mesmo mês, pouco acima da média de 12 meses (US$ 7,2 bilhões). A conta corrente acumulada em 12 meses permanece deficitária em -2,47% do PIB, financiada com folga pelo IDP, o que reduz a vulnerabilidade externa imediata.
Qualidade de vida
Sem dado novo nesta semana nas séries de qualidade de vida, o pano de fundo estrutural permanece: a taxa de pobreza recuou para 25,2% da população em 2025 (ante 26,6% em 2024), o Índice de Gini avançou para 51,1 em 2025 (ante 50,4), sinalizando leve piora na desigualdade de renda, e o analfabetismo caiu para 4,9% entre pessoas com 15 anos ou mais. A melhora no emprego formal e no rendimento médio registrada nesta semana tende a ser um fator favorável à redução da pobreza no curto prazo, embora o efeito sobre a desigualdade dependa de como os ganhos se distribuem entre os estratos de renda.
Modelos do Observatório
A Regra de Taylor calibrada aponta taxa de 9,50% ao ano em julho de 2026, 4,75 p.p. abaixo da Selic de 14,25% então vigente. Essa distância é esperada num modelo didático que não captura todos os fatores considerados pelo Copom, como prêmio de risco fiscal e expectativas desancoradas: a Regra de Taylor é referência analítica, não prescrição de política. Separadamente, a função de reação estimada do Copom ajusta 14,09% ao ano para o mesmo mês (R² de 0,971, explicado sobretudo pela inércia da própria Selic), descrevendo o comportamento passado do Comitê, não uma projeção.
O QPM-lite projeta inflação acumulada em 12 meses de 4,67% em janeiro de 2027, fim do seu horizonte de seis meses (banda de ±1σ: 4,41% a 4,94%), acima da meta, com hiato do produto próximo de zero (-0,02%). O Modelo BC (réplica calibrada do modelo semiestrutural do BCB com coeficientes do Relatório de Inflação de junho de 2024, que simplifica o modelo oficial ao estimar o hiato por filtro HP em vez de Kalman) projeta IPCA de 2,89% no segundo trimestre de 2027 no cenário de regra de Taylor endógena — mas nesse cenário a regra leva a Selic a cerca de 20%; com a Selic mantida em 14,4% o mesmo modelo projeta 4,11%, e com a trajetória de juros do Focus, 4,74%. A diferença entre os cenários mostra quanto as projeções dependem da trajetória de juros suposta: todos devem ser lidos como exercícios didáticos do Observatório, nunca como projeções oficiais do Copom.
O que observar na próxima semana
- IPCA de setembro (IBGE), sexta-feira 09/10: o dado mais importante da semana. A prévia (IPCA-15) subiu 0,70%; o resultado dirá se o acumulado em 12 meses volta a se afastar da meta depois dos 4,22% de agosto.
- PIM regional de agosto (IBGE), quinta-feira 08/10: abertura por estado da queda de 1,2% da indústria, mostrando onde a contração se concentra.
- Boletim Focus (BCB), segunda-feira 12/10: primeira leitura após o IPCA de setembro; acompanhar se a projeção para 2026, hoje em 5,01%, segue acima do teto da meta.
- Na semana seguinte: PMS de agosto (14/10), PMC de agosto (15/10) e IBC-Br de agosto (BCB, meados do mês) dirão se o varejo e os serviços acompanharam a melhora do emprego ou a fraqueza da indústria.
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