Boletim semanalConjuntura da semana
Boletim Semanal · 12 de outubro de 2026
Manchete da semana
O IPCA — Índice de Preços ao Consumidor Amplo de setembro de 2026 subiu 0,82% no mês, revertendo a deflação de -0,32% de agosto e levando o acumulado em 12 meses a 4,58%, 0,08 ponto percentual (p.p.) acima do teto de 4,50% da banda de tolerância e 1,58 p.p. acima da meta de 3,00%. O mercado reagiu na mesma semana: no Focus — Expectativas de Mercado de 09 de outubro, divulgado nesta terça por causa do feriado, a mediana para o IPCA de 2026 saltou de 5,01% para 5,22%, enquanto a expectativa para os 12 meses à frente cedeu de 4,59% para 4,48% e a Selic projetada para o fim de 2026 caiu de 13,50% para 13,25%. A combinação de inflação corrente acima do teto, dólar mais barato e aposta em juros menores no fim do ano resume o dilema do Banco Central neste trimestre.
Destaques em números
- 0,82% a.m. · IPCA (setembro/2026, alta vs. -0,32% em agosto)
- 4,58% acum. 12m · IPCA (setembro/2026, 0,08 p.p. acima do teto de 4,50%)
- 5,22% para 2026 · Focus, mediana do IPCA (pesquisa de 09/10/2026, alta vs. 5,01% em 02/10)
- 4,48% (exp. 12m) · Focus, IPCA 12 meses à frente (pesquisa de 09/10/2026, queda vs. 4,59% em 02/10)
- R$ 4,9892/US$ · Câmbio — USD/BRL e EUR/BRL (fechamento de 09/10/2026, queda vs. R$ 5,2238 em 02/10)
- US$ 362.821 milhões · Setor Externo — Reservas, Investimento Direto e Conta Corrente (setembro/2026, queda vs. US$ 372.616 mi)
Inflação
O IPCA de setembro avançou 0,82%, a segunda maior variação mensal dos últimos 12 meses (o máximo da janela foi 0,88%, em março). Os três grupos de maior contribuição foram Habitação (+0,35 p.p., variação de +2,31%, puxada pela energia elétrica residencial, que subiu 7,98%), Transportes (+0,18 p.p., variação de +0,89%) e Alimentação no domicílio (+0,15 p.p., variação de +0,96%). O acumulado em 12 meses chegou a 4,58%, ultrapassando o teto da meta contínua de 4,50% por 0,08 p.p.; no ano, o índice acumula 3,95%.
Os Núcleos de Inflação — IPCA EX3 registraram 0,26% em setembro, praticamente estável ante os 0,27% de agosto, com acumulado em 12 meses perto de 4,65%. O núcleo de inflação exclui os componentes mais voláteis para capturar a tendência subjacente dos preços. Ele mostra que o salto de setembro veio sobretudo de administrados e alimentos, mas a tendência de fundo segue acima do teto da meta.
Atividade e emprego
Não houve divulgação de atividade nesta semana. Como pano de fundo, o IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central, proxy mensal do PIB) marcou 109,92 em julho/2026, leve recuo ante 110,16 em junho e próximo à média dos últimos 12 meses. O PIB cresceu 2,0% na comparação interanual no segundo trimestre de 2026, acima dos 1,8% do trimestre anterior, mas abaixo da média dos últimos 12 trimestres (2,62%).
No mercado de trabalho, o Desemprego — PNAD Contínua permaneceu em 5,3% em agosto, e o emprego formal (Caged) gerou 165.827 vagas em agosto, bem acima das 58.568 de julho. O Investimento — Taxa de Investimento (FBCF/PIB) recuou para 16,12% do PIB no segundo trimestre, abaixo da média dos últimos 12 trimestres (16,66%). Mercado de trabalho aquecido com investimento em queda é um sinal de atenção para a capacidade produtiva futura da economia.
Micro em foco
O Preços Relativos — Difusão e Abertura do IPCA avançou para 54,91% em setembro (ante 54,38% em agosto), indicando que mais da metade dos itens da cesta do IPCA registrou alta no mês. O índice de difusão, porém, segue abaixo da média dos últimos 12 meses (58,64%), o que sugere que a aceleração de setembro foi concentrada em poucos itens de peso, e não generalizada.
No crédito, o spread bancário avançou para 21,16 p.p. em agosto (ante 20,85 p.p.), próximo à média dos últimos 12 meses (21,27 p.p.). O comprometimento de renda das famílias com o serviço da dívida chegou a 28,72% da renda em julho, o maior nível dos últimos 12 meses, o que tende a limitar o consumo mesmo com emprego em alta. O rendimento médio real ficou em R$ 3.660 em agosto, sustentando a demanda, mas o avanço simultâneo do spread e do comprometimento aperta o espaço para novas contratações de crédito.
O conceito relevante desta semana é o de endividamento das famílias: a relação entre o estoque total de dívidas das famílias e sua renda disponível. Quando o endividamento cresce, uma parcela crescente da renda futura já está comprometida com juros e amortizações, o que reduz a capacidade de consumo e torna as famílias mais vulneráveis a choques de renda ou de juros. O comprometimento de renda no maior nível dos últimos 12 meses ilustra exatamente esse mecanismo.
Juros e câmbio
A SELIC — Taxa Básica de Juros está em 13,75% a.a. desde o corte de 0,25 p.p. decidido pelo Copom (Comitê de Política Monetária) em setembro, o segundo consecutivo depois do corte de agosto; a próxima decisão sai em 04 de novembro. O câmbio recuou de forma expressiva na semana: o dólar fechou a R$ 4,9892 em 09 de outubro, contra R$ 5,2238 em 02 de outubro, queda de cerca de 4,5%, com o grosso do movimento concentrado em 05 de outubro. Não é o menor nível dos últimos 12 meses: em maio o dólar chegou a R$ 4,8973. A apreciação do real tende a aliviar pressões inflacionárias via repasse cambial, mas o efeito sobre o IPCA depende da persistência do movimento e da defasagem com que ele chega aos preços ao consumidor.
Contas públicas
A dívida bruta do setor público avançou para 82,86% do PIB em agosto (ante 82,56% em julho), enquanto a dívida líquida chegou a 69,26% do PIB, o maior nível dos últimos 12 meses. O resultado primário acumulado em 12 meses ficou em -0,62% do PIB, déficit que cedeu levemente ante -0,67% no mês anterior, mas ainda indica que as receitas não cobrem as despesas primárias no horizonte de um ano.
O resultado nominal, que inclui os juros da dívida, piorou para -9,48% do PIB em 12 meses, ante -9,35% em julho. A trajetória da dívida bruta depende tanto do resultado primário quanto do diferencial entre a taxa de juros real e o crescimento do PIB: com Selic elevada e crescimento moderado, o custo financeiro da dívida pressiona o resultado nominal mesmo quando o primário melhora na margem.
Expectativas de mercado
O Focus — Expectativas de Mercado com pesquisa de 09 de outubro, o primeiro após o IPCA de setembro, revisou a mediana do IPCA de 2026 de 5,01% para 5,22%, alta de 0,21 p.p. em uma semana e 0,72 p.p. acima do teto de 4,50%; para 2027 a mediana ficou em 4,30%. Já a expectativa para os 12 meses à frente caiu de 4,59% para 4,48%, queda de 0,11 p.p., e passa a ficar 1,48 p.p. acima da meta de 3,00%: o mês de setembro, muito alto, saiu da janela à frente, e o dólar mais barato reduz a inflação esperada para os próximos meses. A mediana da Selic para o fim de 2026 recuou de 13,50% para 13,25% (12,00% para 2027), o câmbio esperado para dezembro caiu de R$ 5,20 para R$ 5,15 e o PIB de 2026 segue em 1,85%. A leitura é de choque pontual nos preços de 2026, sem contaminação das expectativas mais longas, o que dá espaço para o Copom seguir cortando com cautela.
Cenário externo
O saldo da balança comercial de agosto avançou para US$ 6.621,7 milhões, alta expressiva ante os US$ 5.650,2 milhões de julho. As reservas internacionais recuaram para US$ 362.821 milhões em setembro (ante US$ 372.616 mi em agosto), movimento que merece acompanhamento, embora o nível siga robusto. O IDP — Investimentos Diretos no País somou US$ 7.396,1 milhões em agosto, acima dos US$ 6.968,3 mi de julho, e o déficit em conta corrente acumulado em 12 meses ficou em 2,47% do PIB, ante 2,44% em julho.
No cenário global, o Federal Reserve elevou o intervalo dos Fed Funds em 0,25 p.p. em 17 de setembro, para 3,75% a 4,00% a.a., e a média mensal da taxa efetiva subiu de 3,63% para 3,75%; o CPI dos EUA acumulou 3,35% em 12 meses até agosto. Os dois bancos centrais caminham em direções opostas, com o Fed subindo e o Copom cortando, mas o diferencial de juros entre Brasil e EUA continua perto de 10 p.p. e ajuda a explicar a apreciação recente do real. A trajetória do Fed e a aversão global ao risco seguem como variáveis de atenção para o câmbio brasileiro.
Qualidade de vida
As séries anuais de qualidade de vida não tiveram atualização nesta semana. Como pano de fundo estrutural, a taxa de pobreza recuou para 25,21% da população em 2025 (ante 26,58%), o menor nível dos últimos 12 anos, e o analfabetismo caiu para 4,9% entre pessoas de 15 anos ou mais (ante 5,3%), o menor da janela disponível. O Índice de Gini, porém, avançou para 51,13 em 2025 (ante 50,45), sugerindo que a redução da pobreza ainda não se traduziu em menor concentração de renda.
Modelos do Observatório
O Modelo BC — Semiestrutural de Pequeno Porte (calibrado), réplica didática do Observatório com os coeficientes do Relatório de Inflação de junho de 2024 e hiato estimado por filtro HP em vez de Kalman, aponta para o terceiro trimestre de 2026 hiato do produto de -1,31% e juro real ex-ante de 9,55%, abaixo da taxa neutra estimada de 10,48%. No cenário de regra de Taylor endógena, a inflação acumulada em quatro trimestres cairia a 2,08% no terceiro trimestre de 2027, mas ao custo de uma Selic simulada acima de 22% e de um hiato de -5,2%; com a Selic constante em 14%, a projeção é de 3,90%, e com a trajetória do Focus, de 4,53%. Esses resultados são exercício didático do Observatório e não representam a projeção oficial do Copom.
O QPM-lite — Modelo de Projeção Trimestral projeta inflação de 4,67% em 12 meses para janeiro de 2027 (banda de ±1 desvio-padrão: 4,41% a 4,94%), com hiato do produto próximo de zero (-0,02%). A Regra de Taylor — Taxa Implícita calibrada apontava 9,50% a.a. em julho/2026, 4,75 p.p. abaixo da Selic então praticada, de 14,25%; a distância reflete, em parte, o prêmio de risco fiscal e a inércia da política monetária, e não deve ser lida como indicação do que o Copom deveria fazer. A função de reação estimada do Copom, objeto distinto da Regra de Taylor, ajustou 14,09% a.a. em julho contra a Selic de 14,25%, com R² de 0,971, valor que mede principalmente a inércia da taxa, não a capacidade preditiva do modelo.
O que observar na próxima semana
- Pesquisa Mensal de Serviços (PMS, IBGE), quarta-feira, 14/10: atividade do setor de serviços, que responde por mais da metade do PIB; a leitura de julho mostrou desaceleração para 0,9% a.a., e o dado de agosto dirá se a tendência se aprofunda.
- Pesquisa Mensal de Comércio (PMC, IBGE), quinta-feira, 15/10: volume de vendas do varejo; após recuar de 2,8% para 1,2% a.a. em julho, o resultado de agosto será teste do fôlego do consumo das famílias.
- Boletim Focus (BCB), segunda-feira, 19/10: segunda leitura após o IPCA de setembro; o ponto a observar é se a revisão do IPCA de 2026 para 5,22% continua ou se estabiliza, e se a mediana da Selic de fim de ano se mantém em 13,25%.
- Na semana seguinte: IPCA-15 de outubro (IBGE) na sexta-feira, 23/10, prévia que mostrará se a aceleração de setembro continua; PNAD Contínua mensal (IBGE) em 30/10; e a decisão do Copom em 04/11.
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